BRA-026: Poluição afeta Pedra Branca
Emissão de poluentes provenientes do trânsito intenso nas avenidas Brasil e das Américas provoca o fenômeno da chuva ácida no parque estadual, segundo presidente do IEF. O pH da água da chuva já é semelhante ao da cidade de São Paulo
Maciço da Pedra Branca, a maior floresta urbana do mundo, na Zona Oeste, e a cidade de São Paulo, ao contrário do que se poderia imaginar, têm algo em comum. Trata-se do fenômeno meteorológico da chuva ácida, causado pela presença de poluentes na atmosfera. O problema é analisado numa tese de mestrado em engenharia ambiental do presidente do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Maurício Lobo, a partir de dados da Feema, que mostram que o pH da chuva que cai no maciço é semelhante ao da capital paulista e considerado crítico para o meio ambiente. Coletas realizadas pela fundação entre outubro de 2003 e fevereiro de 2004 revelam um pH médio de 4,9 no Parque Estadual da Pedra Branca, enquanto a média em São Paulo é de 4,7. Na escala que vai de 0 a 14, o pH neutro é 7. Quanto mais baixo o valor, mais ácido.
Resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) estabelece como limite para o lançamento de efluentes líquidos em rios o pH 5, por entender que abaixo disso há alterações nos ecossistemas.
- A chuva já é ligeiramente ácida devido à presença de monóxido de carbono (CO) na atmosfera. Mas o pH inferior a 5 é preocupante - diz Lobo.
A opinião é corroborada pelo vice-diretor do Instituto de Química da Uerj, Fernando Altino. Ele afirma que os ecossistemas do parque podem sofrer alterações.
- O pH abaixo de 5 está num patamar crítico. Se há uma sazonalidade, os efeitos são brandos. Quando é uma regra, têm sido constatados resultados graves. A tendência é de que animais e plantas com sensibilidade à acidez desapareçam e outros, mais resistentes, proliferem. No Norte da Europa existem lagos onde não há mais vida aquática, devido à influência constante do pH ácido da chuva.
Pesquisa realizada nos Estados Unidos e citada na tese do presidente do IEF também mostra as influências da chuva ácida no meio ambiente.
- O estudo mostrou que, quanto mais aumenta a acidez num ambiente, menor é o número de espécies que sobrevivem - afirma Lobo.
Os poluentes que estão causando o fenômeno têm como principal origem as emissões veiculares. Segundo Lobo, as fontes móveis de poluição (veículos movidos a gasolina, álcool, gás natural e diesel) respondem por 77% dos poluentes na região do parque. O restante seria proveniente de fontes fixas, como indústrias.
- A chuva ácida que afeta o maciço está sendo causada principalmente pelo movimento intenso de veículos nas avenidas Brasil e das Américas, as principais vias próximas ao parque - conclui Lobo.
De acordo com a Secretaria municipal de Transportes, passam diariamente 108 mil veículos na Avenida Brasil, altura de Realengo, e 25 mil na Américas, altura da Grota Funda. Considerando este e outros fatores, foi possível identificar a contribuição de cada via nas emissões de dois dos principais poluentes que influenciam na acidez da chuva, o óxido de nitrogênio (NOx) e o dióxido de enxofre (SO2).
Segundo o estudo, 33% das emissões de NOx são provenientes da Avenida Brasil e 8%, da Avenida das Américas. A Rodovia Washington Luiz e a Linha Amarela contribuem com 4% cada uma. Em relação às emissões de SO2, 30% são da Avenida Brasil e 10%, da Américas. A tendência, nos próximos anos, é de que aumente a contribuição da via que corta a Barra e o Recreio, com a futura inauguração do Túnel da Grota Funda.
- Com a abertura da estrada, o parque ficará cercado por vias de intenso movimento - prevê Lobo.
Uma das conseqüências do aumento da poluição, além da chuva ácida, é o agravamento de problemas respiratórios nos moradores da região. Nesse ponto, porém, uma das vantagens da Barra e do Recreio é a proximidade com o mar, que facilita a dispersão dos poluentes. Segundo João Eustáquio, diretor do Departamento de Planejamento Ambiental da Feema, responsável pelo inventário de emissões que norteou a tese, a situação mais crítica é a da bacia aérea que compreende as zonas Norte e Oeste e os municípios da Região Metropolitana do Rio, como Duque de Caxias. Essa bacia fica situada na parte norte do parque e é onde se encontra a Avenida Brasil.
- A Região Metropolitana é dividida em quatro bacias aéreas. A pior é a que vai do Centro do Rio até a Baixada Fluminense, por compreender vias com tráfego pesado, como a Avenida Brasil, e as rodovias Presidente Dutra e Washington Luiz, e o setor industrial de Duque de Caxias. Como agravante, fica num vale, dificultando a dispersão. A bacia da Barra e do Recreio, por sua vez, apresenta uma situação mais favorável, pela proximidade do mar e pelo volume de trânsito menos intenso.
Dados da Secretaria municipal de Meio Ambiente também apontam as zonas Norte e Oeste como campeãs em processos de fiscalização em andamento sobre poluição atmosférica. São 223 na primeira e 83 na segunda. A Barra e o Recreio, no entanto, já superaram a Zona Sul e a Tijuca em número de processos. Os dois primeiros somam 12, e o restante, 11.
Segundo Lobo, ainda é cedo para avaliar quais os prejuízos da poluição:
- Esse estudo constata a ocorrência da chuva ácida e suas causas. É preciso agora investir em pesquisas para saber qual sua influência no meio ambiente.
Feema estuda medidas para conter emissões
A Feema estuda atualmente duas medidas que podem contribuir para diminuir as emissões de poluentes pela frota de veículos da região metropolitana. Já está em andamento um estudo com o Detran para se criar novas normas a respeito dos catalisadores. Segundo Eustáquio, a idéia é que veículos fabricados a partir de 1992 e que estejam com o catalisador com problemas ou vencido passem a ser reprovados na vistoria do Detran. Os carros modernos, equipados com o sistema em bom estado, têm uma emissão de poluentes 40% menor.
A outra medida, que será implementada primeiramente em Niterói,
visa ao controle da frota de veículos a diesel. As empresas de
transporte terão que realizar vistorias nos seus veículos, por meio
de firmas credenciadas pela Feema, trimestralmente.
"É preciso agora investir em pesquisas para saber qual a influência
da chuva ácida no meio ambiente"
INCLUI QUADRO: MEDINDO A PUREZA DO AR [COMPRAÇÃO DA POLUIÇÃO DO AR NAS AVENIDAS BRASIL E AMÉRICA]
Legenda da foto: MAURÍCIO LOBO é o autor da tese de mestrado que mostra a incidência de chuva ácida no parque
Área é pouco conhecida pelos cariocas
Apesar dos seus 12.500 hectares - correspondentes a 11% do território do município e quatro vezes o tamanho do Parque Nacional da Tijuca, o que lhe confere o título de maior floresta urbana do mundo - o Parque Estadual da Pedra Branca ainda é pouco conhecido pela população. Pesquisa de 2002 mostrou que apenas 1% dos cariocas já ouviram falar do parque. Para mudar essa situação, o IEF vem investindo num programa de revitalização.
Até o momento, já foram investidos R$2,8 milhões de um total de R$4 milhões provenientes de uma compensação para licença ambiental assinada com a Eletrobolt/Sociedade Fluminense de Energia, pela construção de uma termelétrica em Seropédica. Com o dinheiro, foram construídos um centro de visitantes, o Núcleo de Prevenção a Incêndios Florestais e de Educação Ambiental e Pesquisa, a sede administrativa e áreas de lazer.
A outra parte do programa está sendo feita por meio de termos de compromisso ambiental com grandes empresas, sobretudo construtoras. A Carvalho Hosken, por exemplo, patrocina a instalação de 13 placas em vias da Barra e da Zona Oeste, indicando o caminho do parque.
Legenda da foto: UMA EXPOSIÇÃO permanente recém inaugurada pode ser visitada no núcleo do parque com acesso pela Estrada do Pau da Fome
Legenda da foto: NA EXPOSIÇÃO, é possível analisar amostras de fungos e bactérias com microscópio

