FIRST PLACE
Projeto Muriqui, parceria de futuro
Fernanda Couzemenco Revista Século - Vitória, ES
Tocando corações e mentes: capixabas unidos para salvar da extinção um dos mais raros primatas do planeta
O muriqui, o maior macaco das Américas, um dos mais dóceis, peculiares e ameaçados de extinção do mundo, encontrou nas matas capixabas um de seus últimos refúgios. Um tesouro e um privilégio, sem dúvida, considerando o grande interesse da cincia pela espécie (Brachyteles hypoxanthus) e a reduzida população, com menos de 500 exemplares, distribuídos em pequenos grupos, em remanescentes de mata atlântica no Espírito Santo , Minas Gerais e São Paulo.
Por aqui, o muriqui - ou mono carvoeiro - já foi avistado no Parque Nacional do Caparaó (60 indivíduos) e em propriedades particulares de descendentes de pomeranos do município de Santa Maria de Jetibá, na região serrana (80 exemplares). Na "Cidade mais pomerana do Espírito Santo", como anuncia a placa na entrada da cidade, ele é mais conhecido como witaopa (macaco branco, em pomerano).
Mas a população mais estudada é a da Fazenda Montes Claros, em Caratinga-MG, onde há mais de 20 anos pesquisadores do mundo inteiro procuram aprender mais sobre o bicho (Veja box).
Uma das mais respeitadas é Karen Strier, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Wisconsin, nos EUA. Apaixonada confessa pelo muriqui, Karen o considera o primata mais interessante do planeta e um símbolo da História Natural do Brasil. Seus estudos sobre o bicho começaram em 1982, quando visitou a Fazenda Montes Claros pela primeira vez. E não pararam até hoje, permitindo que dezenas de outros pesquisadores e estudantes se contagiassem pela paixão ao mono.
A simpatia da ciência pelo muriqui é quase tão impressionante quanto o próprio animal e o medo de que ele desapareça do planeta. O motivo de tanto interesse? Além de ser o maior e um dos mais ameaçados, o muriqui tem características biológicas e sociais que o distinguem bastante dos outros primatas, cativam e instigam biólogos e antropólogos. Como a poligamia, a baixíssima beligerância e a grande agilidade para se locomover no alto das árvores, uma das maiores entre os símios (Veja box). "Os muriquis capturam meu coração e minha mente porque são diferentes dos outros primatas. São macacos muito tranqüilos, que vivem sem hierarquia ou agressão, e acho que eles podem servir como um modelo de como deve ser o comportamento humano", desabafa Karen.
No ES, uma das maiores populações
No Estado, ele ainda foi muito pouco estudado. Por isso acredita-se que sua população nas matas capixabas seja bem maior do que a conhecida, principalmente na região do Caparaó, onde ele ainda só foi avistado em um vale de rio. "é muito provável que existam outros grupos dentro do parque, em outros vales", avalia o biólogo e professor Sérgio Lucena Mendes, doutor em primatas.
Lucena está duplamente entusiasmado com os muriquis do Espírito Santo. Com a expectativa de uma grande população no Caparaó, "talvez a maior do país", estima, e com o Projeto Muriqui, aprovado no final do ano passado pelo Probio - um fundo de financiamento do governo federal.
Do projeto participam também Paulo De Marco Júnior e Valéria Fagundes, o Instituto de Pesquisas da Mata Atlântica (IPEMA), o Museu de Biologia Professor Mello Leitão e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O objetivo é elaborar um plano de manejo para a conservação da espécie, ou seja, estabelecer as ações necessárias para garantir a perpetuação do bicho na região, o que necessariamente inclui a proteção e até recuperação da floresta e o comprometimento da população local com a causa.
Espécie bandeira
Ou, em última análise, o que se quer é fazer do muriqui uma espécie-bandeira, como são o mico-leão-dourado e a tartaruga marinha, para a preservação das demais espécies de macacos e de toda a mata atlântica do Espírito Santo (Veja infográfico). "Queremos aproveitar a simpatia despertada pelo muriqui para proteger o bioma como um todo", afirma Lucena.
Para Karen, a escolha da área para implementação do Projeto Muriqui foi acertada, pois trata-se de uma região com fragmentação de mata relativamente recente. Mas, para garantir o sucesso da empreitada, os pesquisadores sabem que dependem muito do envolvimento da população e dos órgãos governamentais. Assim, os trabalhos de campo nas matas têm sido tocados paralelamente ao trabalho educativo, e até político, com as lideranças e proprietários rurais. "O projeto está sendo bem recebido", analisa.
De fato, na prefeitura, nas igrejas e até na rádio comunitária, a Pomerana FM 104,9, o assunto corre com entusiasmo. O agrnomo da prefeitura e radialista Alfredo Stange conta que recebe, por dia, um a dois telefonemas de ouvintes, anunciando a presença de muriquis em suas propriedades ou de vizinhos.
Já os líderes com visão mais progressista enxergam no Projeto Muriqui uma forma de divulgar o município em nível internacional, abrindo caminho para introduzir o ecoturismo como atividade econômica importante no aumento da renda dos jetibenses, hoje dependentes quase que exclusivamente da horticultura e café.
"Santa Maria pode se tornar um grande centro de ecoturismo", profetiza o pastor da Igreja Luterana e diretor da Escola Familiar Agrícola de São João do Garrafão (Mepes) Siegmund Berger. Em suas pregações, Berger procura orientar seus três mil fiéis e alunos para a preservação da natureza e alertá-los para a possibilidade de explorar a floresta de forma sustentável, através do ecoturismo e produção de sementes, por exemplo. "O maior temor das pessoas é de perder a autonomia de suas propriedades. Quando entendem que não correm esse risco, fica tudo mais fácil", explica.
Trabalhos como o do pastor Berger, intermediando o contato entre pesquisadores e os descendentes de pomeranos, são fundamentais para o sucesso do Projeto Muriqui, visto que trata-se de um povo bastante reservado e até mesmo desconfiado de visitantes desconhecidos. Assim, vencido esse obstáculo do primeiro contato, o trabalho torna-se extremamente promissor.
Muriquis no quintal de casa
A disposição dos pomeranos de ajudar na proteção dos muriquis é clara e a maior prova disso é a existência de uma população tão grande do bicho, distribuída em pequenas propriedades particulares tão fragmentadas.
Os grupos de muriquis avistados atualmente têm entre 5 e 15 indivíduos e se distribuem em áreas de no máximo 100 ha, 500 ha, geralmente localizadas em altos de morros e separadas por vales desmatados e cobertos por grandes pastagens degradadas, horticulturas e cafezais. O conhecido costume pomerano de não caçar e combater os caçadores intrusos é talvez a melhor explicação para o fenômeno dos muriquis em Santa Maria.
Todos os proprietários rurais com quem a reportagem de SECULO conversou afirmam ver com freqüência o witaopa. Muitas vezes, a poucos metros da própria casa, na entrada das matas. Apesar de só terem descoberto a importância do bicho para a ciência após as primeiras visitas dos pesquisadores do Projeto Muriqui, todos já haviam adotado o hábito de admirá-lo e observar sua alimentação, locomoção e mesmo o aumento ou diminuição dos grupos.
"Quando era mais novo, lá pelos meus 20 anos, ficava o dia inteiro na mata, nos domingos, e via muito witaopa, grupos de 20 macacos de vez. Hoje tem menos, mas as crianças ainda vêem quando vão para a escola", sorri Clarindo Kriiger, 67. Em 40 anos, a população de monos realmente diminuiu radicalmente. Um censo de 1971 indicava uma população de 3 mil indivíduos, seis vezes maior do que a atual.
Mas, desde que estão em campo, os pesquisadores do Projeto Muriqui perceberam o nascimento de filhotes em alguns grupos, o que indica que a espécie tem se reproduzido e, possivelmente, aumentado sua população, pelo menos em Santa Maria. Mas o isolamento forçado pela fragmentação da mata preocupa, pois pode provocar problemas de consangüinidade, pouca variabilidade genética e até mesmo maior vulnerabilidade a catástrofes naturais e epidemias.
No futuro, recuperação florestal
A interligação natural entre os fragmentos é feita pelos muriquis através dos cipós e copas de árvores, mas os pesquisadores já ousam sonhar com a reconstituição florestal nas áreas de pastagens improdutivas e abandonadas, o que pode fazer da silvicultura e produção de sementes novas opções econômicas para a comunidade local. "Mas ainda é preciso avaliar a viabilidade técnica e o interesse dos proprietários em realizar esse reflorestamento", acautela Lucena.
O primeiro passo, felizmente, já foi dado: a decisão de não desmatar nem caçar, tomada espontaneamente. é comum ouvir, dos Berger, Krüger e bt de Santa Maria, a mesma explicação para a manutenção de florestas em suas propriedades particulares: "Não precisa derrubar mais, não vamos usar para plantar. é importante deixar a mata, para preservar a água e os bichos", explica, com simplicidade, Paulo Seick, 38 anos, em cuja propriedade ocorre o raro fenômeno da presença de muriquis a 200 metros do asfalto.
Helmut, 56, também não vê motivos para se desfazer de seus hectares de mata. Ao contrário, tem se convertido em um defensor da natureza, propalando a importância da água e das florestas na igreja onde ajuda a celebrar cultos e ensina o catecismo. "As 400 famílias daqui do Rio das Pedras me apóiam. Entenderam que não podem acabar com a natureza. Senão, o que vai ser das nossas crianças? Vão viver em um deserto?", provoca.
Se depender dos amantes do muriqui, certamente não. "Os muriquis são símbolos de como nós humanos podemos destruir a natureza e também de como podemos preservar este mundo. Eles também representam, na minha opinião, uma segunda chance, deles próprios sobreviverem nas matas que ainda existem, e de nós continuarmos sobre a Terra", sentencia Karen Strier.
Caratinga-MG: onde tudo começou
O lugar onde mais se estuda o muriqui no Brasil é a Fazenda Montes Claros, em Caratinga-MG. Devido à sua grande importância para a preservação da espécie, ela foi transformada, no ano passado, na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala, em homenagem a seu ex-proprietário, falecido aos 92 anos em 2000, que em 1976 tomou a iniciativa de proteger a floresta de cerca de mil hectares existente em sua fazenda.
Um terço da população conhecida de muriquis se encontra lá - atualmente, cerca de 150 animais. E, de tão familiarizados com os pesquisadores, foram até batizados com nomes próprios, como Daniel, Nina e Bruna. A fazenda, agora RPPN, é referência mundial na preservação da espécie e serve de modelo para o que pode ser criado no Espírito Santo.
País dos macacos
Com exceção do homem e do macaco-da-neve, do Japão, todos os demais são encontrados apenas em áreas tropicais da América, áfrica e ásia. Não ocorrem macacos na Oceania, porque o isolamento deste continente se deu antes do aparecimento dos ancestrais dos macacos atuais.
Os primeiros primatas provavelmente surgiram na região paleotropical, há aproximadamente 60 milhões de anos. Os macacos neotropicais surgiram a aproximadamente 35 milhões de anos.
As florestas tropicais apresentam grande dificuldade para a formação de fósseis. Isto deve-se à facilidade de decomposição devido ao clima úmido e quente dos trópicos. Por isso fósseis de macacos são raros, o que dificulta o estabelecimento da origem e de linhagens evolutivas. Porém, existem duas teorias que tentam explicar como eles surgiram na América do Sul.
A primeira defende que eles teriam se originado de primatas primitivos que habitavam a América do Norte - em uma época em que lá haviam florestas tropicais. Estes primatas migraram para o sul, alcançando a América do Sul.
A segunda teoria defende que nossos macacos evoluíram de espécies africanas, que aqui chegaram em pedaços de terra desprendidos daquele continente. Isto, em uma época em que áfrica e América estavam bem mais próximas. Pressões seletivas diferentes das africanas propiciaram a diferenciação das espécies sul-americanas das africanas originais.
Estudos comparativos entre os fósseis sul-americanos e os da América do Norte indicam semelhanças entre ambos. Porém, os macacos americanos atuais são morfologicamente mais parecidos com macacos paleotropicais atuais.
A verdade é que a variedade de ecossistemas sul americanos, geralmente com grande oferta alimentar, propiciou a evolução das diversas formas atuais e outras já extintas. Esta é uma das razões do Brasil possuir o maior número de formas (espécies e subespécies), 120 aproximadamente, sendo que a maioria é endêmica, ou seja, só ocorrem aqui, em nenhum outro lugar do mundo.
* O mundo está dividido em seis regiões biogeográficas: 1-Boreal, 2- Paleotropical; 3- Sul-africana; 4-Australiana; 5- Antártica e 6- Neotropical (México, América Central, Caribe, e a América do Sul, com exceção do extremo sul da Argentina e do Chile).
(BOX)
Sensual, promíscuo e zen
Penha Emerick*
O muriqui ou mono carvoeiro (Brachyteles hypoxanthus) é um macaco raríssimo, uma espécie gregária e pacífica, de alta promiscuidade e grande longevidade - 20 anos, aproximadamente. O macho pode atingir até 15kg e 1m de comprimento, da cabeça às patas inferiores, sem contar o 1,2 m de cauda que funciona como um quinto membro, ajudando-o a equilibrar-se com rapidez e graça pelos galhos mais altos das árvores. As mãos, sem o polegar oponível, como o dos humanos, facilitam ainda mais esse balé nas alturas.
A palavra muriqui significa gente tranqüila, na língua tupi. Há quem atribua a tranqüilidade do muriqui à sua grande performance sexual. Ele parece estar sempre de bem com a vida. Sua face demonstra serenidade e satisfação permanente, a sensação de viver sempre extasiado.
A sociedade dos muriquis constitui quase que uma exceção entre os macacos. A disputa dos machos pela propagação de seus genes se dá pela grande performance sexual da espécie e pela grande produção e capacidade de armazenamento do esperma, pois os seus testículos são descomunais.
Nesta sociedade promíscua a evolução criou uma forma quase que totalmente eficiente de garantir o sucesso reprodutivo ao macho que copula: o esperma do muriqui tem a propriedade de solidificar-se na porção inicial da vagina. Assim, cria um tampão que impede novas cópulas com outros pretendentes. Porém, as fogosas muriquis habilmente desenvolveram a capacidade de remover o incômodo tampax, possibilitando uma nova cópula.
As fêmeas gozam de grande liberdade na sociedade muriqui. Têm quantos parceiros desejarem e são elas que mais perambulam e mudam de grupo quando desejam. São responsáveis pelo transporte dos filhotes, carregados agarrados ao ventre por 8 meses.
Cabe aos machos o dever de manter seus grupos coesos e suas alianças, tal qual os chimpanzés do Velho Mundo. Não há agressão na sociedade muriqui e os machos são amigos e coesos. Estes, quando ameaçados, se abraçam, formando um enorme bloco que afugenta o agressor.
A espécie forma grupos de até 50 indivíduos: 30% de machos adultos, 50% de fêmeas adultas, 10% jovens e 10% de filhotes. O grupo caminha de forma diferente dos demais macacos: os machos ficam no centro e as fêmeas e os filhotes ao redor. O grupo se dispersa na procura do alimento, mantendo o contato pela vocalização.
A alimentação dos muriquis constitui-se de 40% de folhas, 40% frutos, 10% de flores e sementes e 10% de insetos.

