BDRA-62-A primeira entre as pioneiras

Valdemar Sibinelli   Revista Terra da Gente - Campinas, SP   January 2010

Quando o Brasil ainda tinha quase todas as suas florestas em pé, uma árvore chamava a atenção dos colonizadores e naturalistas estrangeiros. "Muito singular e de grande efeito no cenário, distingue-se a embaúba entre as outras altas figuras da mata virgem", descreveram Johann von Spix e Carl von Martius, em 1823. Bem antes dos alemães, o colonizador português Gabriel Soares de Souza fez a primeira descrição da embaúba, em 1587, no livro Tratado Descritivo do Brasil: "Uma árvore comprida e delgada, que faz uma copa em cima de pouca rama... Tem o olho desta árvore grandes virtudes para com ele curarem feridas". Para o explorador inglês Richard Burton, em 1869, "a beleza malva e amarela da floresta florida devia-se às folhas prateadas das altas embaúbas, umas das mais interessantes árvores das florestas do Brasil... É, sem dúvida, a rainha do mato".

E nós, os brasileiros? Quem só enxerga madeira numa árvore, não dá nada para a embaúba, espécie originária da zona tropical do continente americano. O tronco oco e mole só serve para fazer caixinha e palito de fósforo. Os índios faziam jangadas rústicas e, com a fibra retirada da casca, corda para os arcos, rede e um tecido cruzado, forte e rústico. Caboclos e escravos removiam o miolo do tronco e faziam trombetas, tubos, calhas e canos de água.

Até as propriedades medicinais da embaúba já foram mais bem aproveitadas. "O sumo recentemente extrahido dos botões foliáceos da Ambauva (Imbaúba - Cecropia), rica de mucilagens e saes, é empregada como loção refrigerante nas ophtalmias e inflammações erysipelatosas", descreveu von Martius. Hoje, sabe-se com certeza, graças a uma pesquisa de campo sobre as plantas medicinais da Estrada Real, que entre os mineiros o broto é usado na medicina caseira como diurético e para baixar a febre e a pressão arterial.

Mas se a embaúba já não impressiona mais e é até desprezada, tem quem a reconheça como a rainha do mato, a guerrilheira da floresta: os pesquisadores e - se pudessem se comunicar conosco - também os bichos e outras árvores. "A embaúba é espécie pioneira e tem a função de cicatrizar áreas degradadas", informa o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, especialista em Ecologia de Ecossistemas. O pesquisador coordena o Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) de Piracicaba e explica: "como a semente dela precisa de luz para brotar e a árvore cresce rápido, a embaúba modifica e prepara o ambiente com matéria orgânica e umidade para outras árvores".

A embaúba tem ciclo de vida curto, em torno de 20 anos. Por isso, quando a área já está reflorestada, ela sai de cena, como que dando por cumprida sua 'missão'. Mas deixa muitos descendentes espalhados pela floresta: cerca de 800 mil unidades em cada quilo de semente. Se abrir uma clareira e a luz do sol chegar forte ao solo, a "guerreira da floresta" está sempre pronta para o seu papel de pioneira.

Nesta função de regeneradora a embaúba tem importantes aliados: bichos como morcegos, raposas, jacus, macacos, ouriços e tantas outras espécies de mamíferos e aves atraídas pelos seus frutos, doces como figo. A preguiça-de-bentinho (Bradypus tridactylus) se alimenta dos brotos e folhas novas e chega a fazer dela sua 'casa'. Daí um dos nomes populares, árvore-da-preguiça.

A embaúba garante casa e comida também para formigas, principalmente as do gênero Azteca, miúdas mas de picada dolorida. Em troca, a árvore ganha um 'cão de guarda' contra pragas, insetos e até contra o homem. "Cortar um galho, por exemplo, é uma agressão à árvore, então as formigas reagem porque é o seu próprio abrigo que está sendo destruído", diz a engenheira agrônoma Dionete Santin, do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Universidade Estadual de Campinas (Nepam/Unicamp). A esta troca de favores entre a embaúba e as formigas se dá o nome de simbiose.

Nas florestas e matas, basta a embaúba para começar o processo de 'cicatrização'. Mas como dá pouca sombra, em áreas invadidas por gramíneas exóticas, como a braquiária, ela precisa do reforço de outras espécies para garantir o sombreamento necessário para conter o avanço das invasoras. Em geral, ela cresce primeiro, sendo seguida de perto por outrass pioneiras. "A embaúba tem também papel importante porque atrai os bichos que vão espalhar as sementes de todas as espécies", destaca Ricardo Rodrigues.

O pesquisador é de opinião que, quem tem espaço, pode plantar a embaúba como árvore ornamental. "Admiro muito esta árvore, bonita pela sua copa, pela inflorescência. É só a pessoa não se importar com os bichos que ela atrai, como os morcegos", diz. A engenheira agrônoma Dionete Santin não indica o plantio em calçada, "porque alcançam a fiação rapidamente e as podas se tornam inconvenientes por causa da associação com formigas que vivem no interior dos seus ramos". Mas a 'rainha do mato' pode reinar também em jardins e quintais com bastante espaço, onde a planta não precise sofrer intervenções constantes.

Para sorte dos bichos e de outras espécies vegetais, a embaúba resiste à previsão pessimista do naturalista francês Conde de Castelnau que, em 1850, vaticinou: "Estas florestas primitivas se vão tornando raras nas imediações do Rio de Janeiro; são incessantemente atingidas por incêndios e dentro de poucos anos os mandiocais e as bananeiras terão substituído as Cecropia e as Lecythis" (embaúbas e sapucaias, respectivamente).

Dionete Santin diz que a 'guerreira' não corre o risco de desaparecer porque tem capacidade de se estabelecer mesmo nos locais mais degradados, como barrancos de rodovias, por exemplo. O perigo, hoje, é a impermeabilização, que causa o desaparecimento de todas as espécies num determinado local. "Ainda assim, na capoeira mais próxima a embaúba será encontrada".

(BOX NOMES)

Muitas espécies, muitos nomes

São tantas as espécies do gênero Cecropia que os pesquisadores não chegam a um número de consenso. Do México até a Argentina, área de distribuição das embaúbas, são cerca de 100 espécies. No Brasil, por volta de 40, a maioria na região amazônica por causa da umidade e do calor. As mais comuns são: Cecropia pachystachya, C. glaziowii, C. peltata, C. bifurcata e C. hololeuca - cujas folhas grandes e brancas se destacam em meio ao verde da mata.

Os nomes populares também variam conforme a região e as características da espécie: embaúba, imbaúba, imbaíba, ambaitinga, ambaíba, árvore-da-preguiça, embaúba-branca, embaúva-prateada, umbaúba-branca, embaúba-vermelha e outros parecidos, com alternância entre as consoantes 'b'e 'v'. A característica do tronco oco está no nome: ambaíba em tupi é "árvore com orifício". Todas as embaúbas têm nós - como os do bambu - no caule e nos galhos. Os galhos, compridos, crescem paralelos ao solo e as folhas se aglomeram nas extremidades. 

(BOX)

Testemunha da regeneração

Ainda me lembro, como se fosse ontem, a primeira vez que visitei o Sul do Pará. Era junho de 1995. Saímos de Alta Floresta (MT) em um avião fretado, rumo a uma pista de pouso a 7 km do rio São Benedito. Ao pousarmos, não imaginava que aquela pista de terra me proporcionaria um testemunho da capacidade de regeneração da floresta.

Desativada naquele ano, a pista foi pouco a pouco tomada por embaúbas que já estavam lá escondidas, em milhares de sementes, aguardando a oportunidade para cobrir aquela cicatriz da mata.

De lá pra cá, já estive na mesma região mais de uma dezena de vezes e sempre passei de carro ao lado da antiga pista. Nos primeiros anos, só se viam as embaúbas. Como guerrilheiras da floresta, elas ocuparam todos os espaços da pista. Logo frutificaram e atraíram centenas de animais, que atuaram como dispersores de sementes. Ao frequentarem as embaúbas atrás de frutos suculentos, várias espécies de aves e macacos atuaram como semeadores da floresta, regurgitando ou defecando sementes dos frutos de outras árvores dos quais se alimentaram.

No solo, naturalmente adubadas, essas sementes brotaram e encontraram uma sombra protetora, necessária para o desenvolvimento de uma nova planta. Ainda graças às folhas largas das embaúbas.

Assim, a antiga pista de terra se tornou floresta de novo, com árvores como o pinho-cuiabano (Schizolobium amazonicum), cujo tronco chega a ter mais de 30 centímetros de diâmetro. É claro que várias espécies colaboraram. As partes refizeram o todo. Mas tudo começou com sementes 'invisíveis', de uma planta que praticamente ninguém admira.