BDRA-61-Entre o bem e o mal
Valdemar Sibinelli Revista Terra da Gente - Campinas, SP February 2010
Responda de pronto: qual a espécie animal com maior capacidade de adaptação para sobreviver? A resposta é mesmo difícil, até para os especialistas. Poderíamos ser nós, mas Homo sapiens é muito 'novo' em comparação com outras espécies do reino animal. Quem aposta num lagarto, porém, pode estar bem mais perto da verdade. Afinal, o bicho tem história: a origem dos lagartos - no plural, sim, pois são mais de 5 mil espécies em todo o mundo - retrocede ao período Triássico, início da era Mesozoica, há 200 milhões de anos. O mais antigo fóssil reconhecido como do gênero Tupinambis - os populares teiús - tem de 10 a 30 milhões de anos, enquanto o homem tem 'apenas' 190 mil anos.
Diferentemente de alguns conterrâneos, os lagartos não foram extintos - como os dinossauros - nem parecem ter sofrido grandes evoluções em suas características físicas - como as serpentes, da mesma linhagem. Em outras palavras, têm um 'design' de sucesso e uma habilidade testada em milênios de história, no quesito sobrevivência.
"Os lagartos dividem um passado comum com os dinossauros, mas não são seus descendentes diretos", explica o biólogo e herpetólogo Leôncio Pedrosa Lima, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Apesar do passado comum, os lagartos hoje estão muito distantes dos dinos. "Os parentes atuais mais próximos dos dinossauros são os crocodilianos - como os jacarés - e as aves", lembra o pesquisador Augusto Abe, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro (SP).
Entre tantas espécies de lagartos, o maior deles e o mais comum no continente americano é o teiú (gênero Tupinambis), com até 1,5 metro e 15 quilos. São sete espécies bem semelhantes, que os especialistas identificam por características como formato e contagem das escamas, proporções corporais e formas de reprodução. Para os leigos, as espécies podem ser reconhecidas pela coloração, formato do focinho, tamanho e outras características visuais. Vale notar que os filhotes de teiús têm a cabeça e a parte anterior do dorso verdes. Nesta fase, são confundidos com outro lagarto bem comum: o ameiva (Ameixa ameiva), embora este seja verde apenas na parte posterior do corpo.
Augusto Abe se interessou pelos teiús há quatro décadas e os pesquisa profissionalmente desde 1978. Conforme esclarece, as duas espécies de maior ocorrência no Brasil são T. teguixin e T. merianae, bem parecidas entre si. "A aparente indefinição tem sua razão: ambas as espécies têm ampla distribuição geográfica e com variações, ao longo desta distribuição, na coloração e na forma do corpo, que mudam com a idade e o sexo", afirma.
Os nomes comuns também atrapalham. "A denominação vulgar é extremamente imprecisa e confusa. O povo tem bom discernimento para alguns animais, como peixes e aves. Porém, para outros, como anfíbios e répteis, faz uma confusão danada. Com a migração interna das espécies, intensificada nos anos recentes, os nomes vulgares se espalham aumentando a confusão", continua o pesquisador.
Como a maioria dos animais silvestres, o teiú é tímido e foge do homem. Se não dá para fugir, tenta se camuflar e, no último caso, usa o rabo como chicote e também morde. Ainda pode usar o recurso extremo de deixar parte da cauda em poder do predador. Depois a cauda se regenera, como acontece com a lagartixa de parede e diversos outros lagartos.
A capacidade de resistir a ambientes hostis e se adaptar às variações de temperatura ajuda a explicar a longevidade do teiú, que vive em média 16 anos em cativeiro. O lagarto é movido a 'energia solar', ou seja, precisa absorver a radiação do sol para manter a temperatura do corpo elevada. É, cientificamente, um 'amigo do sol', ou heliófilo. Mas não convém subestimar sua capacidade de reação só porque o sol não saiu. "Quando o animal não fica devidamente aquecido, o metabolismo basal cai bastante. Ainda assim, ele é capaz de realizar comportamentos de fuga ou ataque em casos de estresse", explica Pedrosa Lima.
O biólogo Alexis Fonseca Welker, professor da Universidade Federal de Goiás, pesquisa os teiús do Sul e do Sudeste do Brasil. Diferentemente de outros animais das regiões temperadas do Hemisfério Norte, eles não precisam de uma drástica redução de temperatura corporal para hibernar. Basta a temperatura baixar um pouco, em torno dos 17 graus centígrados, e a luminosidade natural mudar pela aproximação do inverno para o nosso lagartão hibernar. Para o pesquisador, "a explicação clássica é que isso tem a ver com a diminuição da oferta de alimentos, como a menor presença de insetos, mas essa idéia ainda não está comprovada".
Num país tropical, sem inverno rigoroso, soa esquisito falar em hibernação. Augusto Abe prefere usar o termo estivação, principalmente para o Nordeste, onde os bichos não se entocam por causa do frio. Estivação é o estado de dormência ou letargia de alguns animais quando a temperatura está bastante elevada. Como para os humanos, também para os lagartos tomar sol é bom, mas sem exagero (ver exemplo do lagarto ameiva na coluna Observador Caçadores do céu e da terra, edição 24, abril de 2006, pág. 54).
A hibernação e a estivação, em resumo, são maneiras de regular a atividade de acordo com a temperatura do corpo. Deste modo, não há sol ou chuva, calor ou frio a que esses répteis não resistam, uma fórmula bem sucedida de sobrevivência, testada e aprovada. "Se o processo fosse ineficiente, como pretende nosso egocêntrico conceito mamaliano, os teiús não estariam por aqui há mais de 100 milhões de anos", conclui Abe.
Se para os nossos teiús não tem tempo ruim, também não falta abrigo. Basta um buraco para ele se alojar num cafezal, em cerrados, caatingas, nas bordas das matas-de-galeria ou no interior de matas mais abertas. No entanto, na hora de preparar um ninho para os ovos - em torno de 30 a cada ano - eles preferem o oco de cupinzeiros, no interior dos quais a temperatura é mais estável.
Esses lagartos também não têm nenhum problema com o básico da sobrevivência, a comida. Teiús comem de tudo: frutas, ovos, pequenos animais, folhas verdes, larvas, insetos, vermes e até carniça. Ou seja, são onívoros. Com sua flexibilidade, ajudam a dispersar sementes em fragmentos de florestas, a fazer uma faxina no ambiente e a combater pragas e a proliferação excessiva de camundongos.
Infelizmente, o oportunismo dos teiús pode custar caro ao homem e ameaçar a própria vida. Sempre carregaram a fama de 'assaltantes de galinheiro', desde que se restringiam à zona rural. Com a diminuição do hábitat e de presas por causa dos desmatamentos e do avanço da zona urbana, os teiús estão se adaptando à cidade. Podem ser os nossos vizinhos que fuçam o lixo doméstico e invadem o quintal para predar ovos e filhotes, como pintinhos.
Nem por isso devem receber uma sentença de morte, na opinião do pesquisador Augusto Abe. "O teiú ataca como qualquer outro bicho. Quem quiser criar pintinhos e adjacências, que os cerquem bem. Soltos, sempre estão expostos a gaviões, gambás, além de cães e gatos", diz.
A regra é válida para o Brasil continental. Mas deveria ser diferenciada para um arquipélago onde o lagarto não é bem-vindo: Fernando de Noronha, o destino paradisíaco dos turistas onde também há um Parque Nacional. Na década de 1950, dois casais de Tupinambis merianae foram introduzidos na ilha principal com a intenção de controlar a população de ratos. Acontece que o onívoro teiú é animal oportunista, ou seja, come o que estiver mais fácil, mais 'à mão', como os ovos que as aves marinhas botam no chão.
Mais tarde, na década de 1980, um casal de teiús também foi levado para a segunda maior ilha do arquipélago, a Rata, repetindo a devastação dos ninhos. No final da década de 1990, houve uma tentativa de exterminar o invasor, autorizando a caça controlada, a exemplo do que é feito em muitos ambientes insulares de todo o mundo. A população do lagarto diminuiu muito, mas não foi erradicada. Mudou a política, o esforço de manejo foi esquecido e hoje é proibido caçar o animal, como no continente, onde ele é nativo. Conclusão: os lagartos se multiplicam sem controle, bem alimentados com um banquete de ovos e filhotes de tartarugas marinhas e aves. E os ratos, sem serem incomodados pelo predador, também têm superpopulação. Esta regalia os bichos devem ao homem, numa de suas equivocadas interferências naquele santuário.
Por outro lado, no continente, onde não são invasores e deveriam ser poupados, os teiús são vítimas de caçadores. A lei admite a caça de subsistência praticada por alguns povos indígenas e populações tradicionais. E ainda há quem se arrisque a consumir o bicho ilegalmente, dado seu tamanho avantajado e carne considerada saborosa. Segundo Abe, o teiú é só mais um item da variada lista da "escala zoológica da culinária nativa": rã, bacurau, tanajura, mocó, aves diversas, tatus... "O povo come de tudo, com as mais variadas desculpas", observa.
Em alguns países, como a Argentina, os teiús são caçados também por causa do couro. No Brasil, como qualquer caça aos animais silvestres é proibida, não dá para avaliar o comércio clandestino de couro de lagarto. Porém, na relação custo/benefício, o valor da pele nem compensa o esforço de caça, na opinião de Abe. E ele arremata: "Acho a atividade abominável, mas fica a questão: a caça por couro seria mais devastadora do que os desmatamentos que vêm acontecendo no Cerrado e no Mato Grosso, nas últimas décadas, para a expansão do agronegócio?"
(BOX 1)
Os nossos teiús
Os registros fósseis do grupo dos lagartos - Lacertilia - são escassos e fragmentados na América do Sul. No Brasil, as pesquisas são recentes e os dados muito preliminares. Em 2004, a Sociedade Brasileira de Herpetologia reuniu pesquisadores para fazer a Lista Brasileira de Anfíbios e Répteis, publicada na página da SBH na internet (www.sbherpetologia.org.br/checklist/repteis.htm) e atualizada constantemente. A última atualização, de 2009, aponta 711 espécies de répteis distribuídas em 33 famílias. Os lagartos mais conhecidos estão na família Teiidae, com 31 espécies espalhadas pelo continente americano.
Os populares teiús são do gênero Tupinambis, com 7 espécies. As duas de maior ocorrência no Brasil são Tupinambis teguixin, na bacia Amazônica, e T. merianae, da Calha Sul da bacia Amazônica para o Sul. T. longilineus também é encontrado na Amazônia brasileira; T. palustris é endêmico da bacia do rio Paraná; T. duseni e T. quadrilineatus são endêmicos do bioma Cerrado; T. rufescens é restrito ao Chaco da Argentina, Bolívia e Paraguai.
"A taxonomia (ciência da identificação das espécies) dos Tupinambis ainda tem sido alvo de diversas confusões", segundo o biólogo Leôncio Lima, do ICMBio. Também a distribuição não é totalmente certa devido à migração das espécies, intensificada nos últimos anos.
(BOX 2)
Da guerra à paz
Minha relação com os teiús vem da infância, em meio a um cafezal, no interior paulista. Eram tempos de guerra entre o homem e o animal. Ou melhor, entre o lavrador (meu pai) e o lagarto - como era simplesmente chamado o teiú por aquelas bandas. O motivo das desavenças: o teiú varava a cerca de bambu do quintal, banqueteava-se com ovos frescos e atacava inocentes e indefesos pintinhos, patinhos e marrequinhos.
A estratégia de luta era simples: botar a armadilha no cafezal, por perto da toca do adversário. Ele entrava no caixote atraído pelo ovo e quando abocanhava a isca a portinhola da 'lagarteira' se fechava às suas costas. Inimigo capturado, era só passar para um saco de estopa e abater com habilidade e técnica, num golpe certeiro na nuca.
O saldo da batalha era o prato do dia. A carne do lagarto, frita em banha de porco no fogão a lenha, nada ficava a dever aos peixes mais nobres. Mas não era qualquer teiú que se prestava à culinária, segundo os exigentes caboclos: tinha que ser o chamado lagarto-de-cafezal, daqueles pretões, grandes e gordos. Justamente os 'assaltantes de galinheiro'. Para a minha sorte - e certamente de toda a família - sempre aparecia um novo 'ladrão', e nova batalha era deflagrada com o final previsível do troféu no prato.
Hoje, após muitos anos de proibição da caça e conscientização ambiental, os 'meus' teiús, na chácara, desfrutam casa e comida sem serem incomodados. O tempo muda, e a gente com ele. Bom para mim, atualmente, é ver os teiús ao vivo, 'lagarteando', passeando desengonçadamente ou exercendo o papel de 'cães de guarda' contra bichos indesejados. Bons tempos estes - na paz da Natureza.

