BDRA-57-APA ganha 220 mil mudas em um ano

RogĂ©rio Verzignasse   Correio Popular - Campinas, SP   December 2009

Ambientalistas campineiros conseguiram, em pouco mais de um ano, fazer a recomposição vegetal de cem hectares de terra, na Bacia Hidrográfica do Ribeirão das Cabras, em Campinas. Com recursos da iniciativa privada, voluntários e equipes terceirizadas transformam uma paisagem desmatada ao longo de décadas.

No período, 220 mil mudas de espécies nativas foram plantadas. E outras 60 mil, em desenvolvimento em um viveiro especial, serão cultivadas nas margens de córregos ao longo dos próximos meses.

Trata-se do maior programa de reflorestamento da história de Campinas. O objetivo do trabalho é desenvolver corredores ecológicos estratégicos, ligando três importantes fragmentos florestais (trechos de mata nativa remanescente). Ao final do projeto, serão mil hectares reflorestados. Garantia de preservação para mananciais hídricos que, a partir de Campinas, levam água para as torneiras de aproximadamente 1 milhão de pessoas, moradoras de cidades que fazem a captação em rios como o Atibaia e o Piracicaba.

A ação especial de reflorestamento começou em novembro do ano passado. Na época, a Associação de Proteção Ambiental Jaguatibaia passou a ser o braço gestor do Projeto Florestas do Futuro, da organização não governamental SOS Mata Atlântica, que procura patrocínio de empresas para recuperar e manter áreas de proteção ambiental em todo o Interior. Na ocasião, Campinas passou a contar com R$ 15 mil mensais, que remuneram técnicos responsáveis pela modernização do viveiro de mudas instalado em Joaquim Egídio. "Os recursos investidos são irrisórios, se considerarmos a importância dos resultados. A gente vai preservar milhares de nascentes. Além disso, fornecemos alimento e abrigo à fauna silvestre, preservando a biodiversidade", comemora o ambientalista José Carlos Perdigão, presidente da associação.

A reconstrução dos corredores ecológicos (que ligam os maciços preservados na Mata do Ribeirão Cachoeira, Fazenda Santa Maria e Fazenda Bonfim) é um sonho antigo. Em uma década, 21 mil mudas nativas foram doadas aos moradores para arborização dos distritos, em eventos como o Reviva o Rio Atibaia, patrocinados por grupos privados como a Merck Sharp & Dohme.

Agora, em um único ano, o patrocínio privado permite um plantio dez vezes maior. Os recursos foram investidos pela Química Amparo, fabricante do sabão e do detergente Ypê. O treinamento de funcionários do viveiro e frentes terceirizadas de reflorestamento é feito por especialistas: o biólogo Fábio Benedetti e o engenheiro agrônomo Rafael Paranhos Martins, contratados.

De acordo com Perdigão, o projeto foi pensado para permitir, à associação, fôlego para andar com as próprias pernas. Hoje a Jaguatibaia conta com oito funcionários registrados. Além dos especialistas, há uma auxiliar administrativa na sede e cinco lavradores trabalhando no viveiro. Ali, às margens da Estrada das Cabras, aquele centro de educação ambiental e restauração de florestas é um espaço de excelência, com umidade controlada por um sistema especial de irrigação, formas apropriadas para arejamento das mudas, uso de inseticidas naturais para o controle de pragas e desinfecção dos tubetes (suportes de cada muda).

O plano para 2010 é construir ali mesmo uma sala de aula, ligando o escritório da ONG ao barracão de serviços. "Com o programa de reflorestamento já implementado, fica mais fácil conseguir patrocinadores. Mostrando resultados, a gente conquista a confiança da sociedade civil", diz.

Estratégia

A Área de Proteção Ambiental (APA) de Campinas, em Sousas e Joaquim Egídio, foi criada em 2001, com a aprovação da Lei Municipal 10.850. Desde então, 5.783 hectares passaram a ser preservados como área de proteção permanente. Em trechos de mata nativa, os proprietários rurais foram convidados a cercar as glebas e barrar desmatamentos. Onde já houve degradação, acontece o replantio.

Mudas de uvaia, ipê, jequitibá, limão-bravo, ingá e paineira, entre outras espécies, crescem no terreno e embelezam a paisagem. O sucesso da empreitada depende muito da colaboração de proprietários rurais que deixaram de usar margens dos córregos como áreas de pastagem. E de empresas instaladas nas vizinhanças, como a Agropecuária JS, que passaram a respeitar as áreas demarcadas, e a permitir que as árvores cresçam em terrenos de velhas pastagens. "Temos resultado quando as pessoas se envolvem na causa. Não adianta lei, se a sociedade não assume seu papel na preservação", diz Perdigão.

ONG virou referência no setor

A Associação de Proteção Ambiental Jaguatibaia, fundada em 1996, tem o objetivo de regulamentar a APA de Sousas e Joaquim Egídio, que abrigam 60% de toda a vegetação nativa em Campinas. Além dos distritos, a área protegida por lei engloba o bairro rural Carlos Gomes. A área total (225 km²) equivale a um terço do território campineiro. O nome Jaguatibaia vem da junção de Atibaia e Jaguari, rios que juntos respondem pelo abastecimento de 60 cidades da região. Hoje, a associação está consolidada como referência ambiental, oferecendo cursos educativos, denunciando crimes ecológicos, encabeçando campanhas de reflorestamento, e atuando em conselhos gestores e câmaras temáticas do setor. (RV/AAN)

SAIBA MAIS

A sede da Jaguatibaia fica na Rua Paschoal Franceschini, 137, no distrito de Sousas. As pessoas interessadas em conhecer detalhes dos projetos desenvolvidos podem entrar no www.jaguatibaia.org.br. Quem quer se oferecer para participar das atividades ou patrocinar eventos pode escrever para jaguatibaia@jaguatibaia.org.br ou ligar para (19) 3258-6513.

Crimes ambientais também podem ser denunciados no 3258-6701 (Guarda Municipal Ambiental).