BDRA-44-O difícil caminho de volta
Marcos Correia Revista Terra da Gente - Campinas, SP June 2009
A arara-canindé (Ara ararauna) se agarra ao poleiro e mostra a cabeça, completamente pelada. O triste espetáculo é apenas um detalhe de um crime muito comum: a violência contra os animais. A ausência de penas é sinal de estresse, causado pelo cativeiro e possíveis maus tratos. É o primeiro sinal visível de uma automutilação que costuma resultar na morte de animais capturados na natureza e confinados a espaços restritos.
No caso em questão, porém, o destino da ave pode não ser tão trágico, graças ao esforço de Valdomiro Livenko. Proprietário de um aviário de 2.500 metros quadrados em Itanhaém, na Baixada Santista (SP), ele recebe aves apreendidas pela polícia ambiental ou encontradas feridas.
"Com certeza a arara deu início ao processo de arrancar as penas da cabeça, mas outras aves continuaram", explica ele. "Quando o bicho está numa situação muito ruim, de alimentação ou espaço, começa a arrancar as próprias penas. No caso dessa ave, estamos conseguindo reverter isso". Na receita para a cura, o principal ingrediente é atenção individualizada, mas sem criar dependência.
Valdomiro faz parte de um grupo de idealistas, cuja maior vitória é conseguir devolver a liberdade a animais silvestres, após sua recuperação. Eles são como os guardiões do folclore brasileiro, contra quem maltrata os animais ou destrói as matas: o curupira (cujos pés invertidos confundem os caçadores) e a caipora (que persegue quem queima a vegetação).
A organização não-governamental (ONG) Bichos da Mata, presidida por Valdomiro, cuida de mais de 700 aves, de 80 a 100 espécies diferentes. "Nós só conseguimos recuperar 60% dos bichos que recebemos", diz. Entre os casos mais graves e sem possibilidade de retorno à natureza estão aves com os olhos queimados por brasas de cigarro - para cantar durante a noite - ou com asas quebradas - para não voar. E animais comprometidos por períodos prolongados de estresse, doenças ou subnutrição.
No Centro de Recuperação de Animais Silvestres (CRAS) do Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, chegam animais apreendidos todos os dias. Muitos foram mutilados. Lá eles recebem atendimento veterinário e são mantidos em abrigos, até serem encaminhados para criadores licenciados pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). No Estado de São Paulo existem aproximadamente 500 instituições autorizadas a receber esses animais: 200 criadouros comerciais, 180 criadouros conservacionistas, 17 criadouros científicos, além de centros de triagem e mantenedores.
Em Brotas (SP), Márcia Sponda abriu as portas de sua pousada para os animais. Volta e meia, a polícia ambiental aparece com algum 'hóspede' em busca de abrigo. Assim, o sítio se tornou a casa de Tchuca, uma macaca-prego que se perdeu do bando e foi encontrada ferida numa rodovia. "Disseram que quando o macaco-prego se separa do bando por algum motivo, ele não é mais aceito de volta. Então a macaquinha vai ter que formar o próprio bando. Estou esperando a chegada de um macaco macho, que está aprontando em propriedades da região e a polícia está tentando apreender, antes que alguém mate", diz Márcia.
Entre papagaios e periquitos, uma quati chamada Duda se destaca. Ela foi trazida para o sítio ainda filhote. "Morava dentro do banheiro de uma casa", lamenta Márcia. Hoje a quati vive em semiliberdade, parte do tempo num cercado, parte numa árvore do terreno, onde inclusive já fez dois 'ninhos'. "Uma vez apareceu um quati macho por aqui, mas o namoro não deu certo", lamenta a empresária. Seus comentários não escondem o amor pelos animais, característica fundamental para os guardiões de bichos, voluntários que, como ela, procuram proporcionar uma nova chance de sobrevivência a seus 'protegidos'.
Os criadouros comerciais são uma alternativa ao mercado clandestino de animais silvestres. Neles, os bichos são tratados de forma adequada, têm procedência conhecida, garantia de que não vão transmitir nenhuma doença. Em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, Moacyr Carvalho é dono de um desses criadouros. Quatro mil aves convivem numa área de 13 alqueires. Muitas chegaram ali por meio do Ibama e da Polícia Ambiental, ou por doações. Das 300 espécies mantidas no sítio, em torno de 20% estão ameaçadas de extinção.
A espécie em situação mais crítica é o mutum-do-nordeste (Mitu mitu), que praticamente não existe mais na natureza. O criadouro recebeu 10 casais da ave e em uma década duplicou o número de indivíduos. "Esperamos que o governo de Alagoas se interesse em levar as aves para lá, onde podem se reproduzir melhor do que aqui", diz Moacyr. Enquanto isso não acontece, o empresário aposentado faz sua parte. Ele prefere não falar em dinheiro, mas admite que manter aquela estrutura "custa muito", pois é preciso ter veterinário, tratadores, recintos adequados, incubadoras...
A analista ambiental do Ibama, Jury Seino, explica que os criadouros comerciais não vendem os animais sob sua guarda, fruto de apreensões. Eles só podem comercializar o produto deles, o que nasce dentro do criadouro. Em alguns casos de animais ameaçados de extinção, como a arara-azul, só a segunda geração em cativeiro poderá ser vendida", adverte. Além disso, a lei prevê que uma parcela desses animais seja reservada para programas de reintrodução. "O criador legalizado precisa investir em técnicos, precisa investir tempo, dinheiro, até conseguir sucesso reprodutivo e começar a vender. Por isso, o preço é muito mais alto que no mercado clandestino. O traficante não investe em nada, ele retira o bicho pronto da natureza e acabou.", lembra Jury. "Quando se compra um animal no mercado negro, alimenta-se um ciclo muito nefasto".
Anular os efeitos de tal ciclo é difícil. A ONG Bichos da Mata cuidou dos 40 papagaios-chauá (Amazona rhodocorytha) soltos em uma reserva da Vale, no Espírito Santo (Veja Terra da Gente, edição 57, pág. 68). Até chegar à soltura foram 2 anos de investimento, e foi solto apenas um terço das 120 aves que passaram por tratamento. "Não é um trabalho simples de abrir a gaiola e devolver para a mata. Os animais precisam ter chance de sobrevivência", reitera Jury.
Os papagaios libertados levaram 3 dias para abandonar as gaiolas na borda da mata. E é possível que alguns não se adaptem, embora cada um deles seja muito importante para toda a população. "Hoje nós devemos ter apenas 1.200 a 1.800 aves dessas na natureza. A situação é crítica", diz Valdomiro Lyvenko. Justamente por toda essa dificuldade, nada traz tanta satisfação para o biólogo Sandro Secutti quanto o ato de libertar aves do cativeiro. "É a conclusão de todo nosso trabalho", diz. Sandro atua no refúgio ecológico Alphavillage, em Itu (SP). É uma área de Mata Atlântica recuperada, de 750 mil m2, para onde o Ibama encaminha animais para serem cuidados e, quando possível, reinseridos na natureza. Lá, o trabalho começou muito antes da primeira soltura. Em 1994, o empresário Fabio de Albuquerque comprou a área e investiu na recuperação da vegetação. "Eu não poderia soltar animais aqui porque eles não teriam onde se esconder ou como conseguir comida", explica. "Tive que criar um ecossistema propício para que os animais fossem de novo introduzidos nessa mata". Quinze anos e 100 mil mudas de árvores nativas depois, o resultado é visível. Cotias e veados catingueiros conseguem sobreviver na reserva, que mais parece uma ilha de biodiversidade em meio à ocupação urbana intensa.
"Estamos muito isolados dos principais corredores ecológicos e suscetíveis a invasões de bichos domésticos ou atropelamentos dos silvestres, em rodovias próximas. Estamos perto de áreas urbanas. Mesmo assim, os animais que sobrevivem aqui dentro têm uma qualidade de vida muito boa", garante, satisfeito.
O refúgio ecológico recebe entre 50 e 100 aves todos os meses. Primeiro elas passam por um período de quarentena, para descartar a possibilidade de doenças. Caso exista alguma enfermidade, é tratada por um veterinário. Só depois as aves são encaminhadas para um grande aviário, com árvores e até um córrego. Nesse ambiente amplo, muito próximo da natureza, os animais são mantidos e observados com atenção. "É um recinto onde elas treinam o voo, aprendem a pegar água direto do córrego e não de um cocho, aprendem a se abrigar na própria vegetação e não em ninhos artificiais", explica o biólogo Sandro Secutti.
Quando a ave demonstra alguma independência, os técnicos verificam se há ocorrência daquela espécie na região. Em caso positivo, a soltura é adequada. E a ave - já bem nutrida e com as penas perfeitas - é transferida para outro recinto. "Então notificamos o Ibama e soltamos", conclui Sandro.
Como repórter, acompanhei a soltura de 10 aves, entre canários-da-terra (Sicalis flaveola), sabiás (gênero Turdus) e trinca-ferros (Saltator similis). Ao contrário do que se imagina, as aves não disparam porta afora assim que se veem libertos. Hesitam muito, alguns querem voltar, segundo Sandro, "porque não têm mais essa noção de amplitude da vida em liberdade. Leva algum tempo, eles começam a procurar um inseto ou uma semente, e finalmente saem".
O voo dessas aves é a maior recompensa para Sandro, Fabio, Valdomiro, Márcia, Moisés e tantos outros guardiões voluntários. É uma recompensa virtual para custos reais, suficiente para mantê-los na ativa, como resume Fábio de Albuquerque: "Não cobrimos nossos gastos, que são muito altos. Temos que investir e gostar. Gostar muito".

