BDRA-42-No rastro da onça-pintada no Rio
Marcelo Gigliotti Machado Jornal do Brasil - Rio de Janeiro, RJ August 2009
Quando o carioca sobe a serra para ir a Petrópolis ou Teresópolis, observa as matas do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, que margeiam a estrada. Ali, no meio daquele manto verde pode estar passeando pela floresta um dos animais mais majestosos da fauna brasileira: a onça-pintada. O maior felino das Américas, abundante na Amazônia e no Pantanal, era considerado praticamente extinto no Rio, especialmente tão perto da capital. Mas um trabalho de campo realizado por pesquisadores mostra que nas matas da Serra dos Órgãos e no Parque do Três Picos, nos arredores de Friburgo e Lumiar, o jaguar ainda sobrevive. A descoberta foi feita por biólogos do Centro Nacional de Conservações de Predadores Naturais
(Cenap), do Instituto Chico Mendes e vinculado ao Ministério do
Meio Ambiente. Eles receberam denúncias de que estavam caçando onças-pintadas no Parque da Serra dos Órgãos. Diante disso, os cientistas resolveram promover expedições à região.
- Instalamos uma série de armadilhas fotográficas na floresta. E
também procuramos outros sinais da presença do felino na região. Acabamos localizando pegadas da onça-pintada, o que confirmou que esta espécie ainda vive na região - diz o biólogo Rogério Cunha de Paulo, do Cenap.
Fundamental Segundo o biólogo, a presença de felinos de grande porte como a onça-pintada é fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas.
- O ambiente que não tem uma quantidade suficiente de predadores do topo da cadeia alimentar pode sofrer sérios desequilíbrios. Eles controlam a população de presas, herbívoros especialmente, que em excesso podem reduzir a biodiversidade
vegetal da floresta.
O primeira etapa do projeto, denominado "Monitoramento de
Mamíferos Terrestres de Médio e Grande Portes no Mosaico de Unidades de Conservação da Mata Atlântica Central Fluminense", foi concluída este ano. Agora, os pesquisadores
partirão para uma segunda fase, ampliando a área de pesquisa para outras unidades de conservação do Rio e partindo ainda
para uma investigação mais rigorosa da presença da onça-pintada na Serra dos Órgãos.
- Vamos colocar mais armadilhas fotográfica para tentar estimar
a população do felino no parque. A ampliação do trabalho para
outros parques da região tem como objetivo descobrir o que os pesquisadores chamam de "corredores ecológicos".
- Queremos verificar a possibilidade de conexões com outras áreas como a Serra da Mantiqueira, pois a onça-pintada se desloca por grandes áreas à procura de caça. Se ela fica confinada numa só área, fica mais suscetível a ter problemas genéticos, mais vulnerável à doenças e acaba perdendo sua capacidade adaptativa - diz o biólogo.
Ao identificar os corredores ecológicos das onças fluminenses,
os pesquisadores esperam preparar um plano de manejo.
- Podemos propor ações como reintrodução de espécies de presas, como queixadas. E propor uma maior fiscalização nestes corredores, especialmente em relação à caça. Segundo o biólogo, até mesmo a cidade do Rio de Janeiro já foi habitat de onças-pintadas:
- Há registros disso por parte de exploradores do século 16.
Certamente, ninguém espera que as onças-pintadas voltem a viver em locais como a Floresta da Tijuca, mas o trabalho destes pesquisadores ao lutar pela preservação da espécie em matas fluminenses mais distantes dos centros urbanos é digno de louvor.

