BDRA-39-Abra os olhos para o araçá

Luiz Figueiredo   Revista Terra da Gente - Campinas, SP   February 2009

As mirtáceas que me perdoem. Desde minha infância - e ainda hoje - tiro uma casquinha dessa família e nem havia percebido a extensão da parceria de quase uma vida. Conheci muitos frutos sem saber nome e sobrenome, apenas os apelidos. Gabiroba, goiabinha, pitanga, sabará, araçá e  muitos outros. E foi o araçá que me abriu certo espaço de destaque entre os colegas da turma do grupo escolar (Ensino Fundamental, atualmente): eu era um dos craques na 'guerra de mamona'. Morava em Mirante do Paranapanema, na região do chamado Grande Pontal do Estado de São Paulo. Nas capoeiras e nos espigões daquele extremo Oeste paulista, o tesouro de um bom guerreiro no estilingue estava nos galhos de araçá ou de seu 'primo-irmão', o pé de goiaba. Espécies frutíferas e pioneiras, essas árvores nascem nas áreas de vegetação em recomposição.

Numa das andanças em busca de matéria-prima, encontrei num araçazeiro a forquilha campeã, ideal para uma atiradeira. O meu bodoque era tiro e queda. Bastava colocar o 'inimigo' centrado na curvatura da forquilha e a bolinha da semente de mamona tinha endereço certo. A pontaria mudou as relações com os amigos: na hora da brincadeira, quando se formavam os pelotões para a 'guerra de mamona', eu sempre era um dos primeiros escolhidos. Saí da turma café-com-leite (os que faziam pouca diferença) e ganhei status de atirador de elite, um privilégio de poucos. Hoje me dou conta da importância do araçá naquele momento e, mais importante, do quanto a família Myrtaceae significa para a formação e para a recuperação das matas pelo Brasil afora.

São aproximadamente 100 gêneros e 3.500 espécies de árvores e arbustos distribuídos por todos os continentes, com predominância nas regiões tropicais e subtropicais. No Brasil, são quase mil espécies de mirtáceas nativas e a família é considerada uma das mais importantes na composição dos ecossistemas florestais e de cerrados. "A maior parte destas plantas é produtora de frutos comestíveis. Algumas espécies brasileiras já são exploradas comercialmente, como a jabuticabeira (Myrciaria cauliflora) e a goiabeira (Psidium guajava). E muitas outras de potencial econômico começam a ser estudadas com a mesma finalidade", explica o pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), Eduardo Suguino.

O araçá entra no caso das novas pesquisas. São diversas espécies, distribuídas em praticamente todo território nacional. Como é de praxe, regionalmente a planta ganha uma boa variedade de nomes populares. Na maioria são plantas de porte baixo ou médio, atingem, no máximo, aproximadamente 10 metros de altura. No aproveitamento da madeira - estilingues à parte - o uso mais comum é como cabo de pequenas ferramentas ou para construir pequenas estruturas, como cercas, caibros e ripas.

Para os pesquisadores, estas espécies têm importância devido ao potencial econômico dos frutos e por seu papel no equilíbrio dos ambientes onde se desenvolvem. As flores dos araçás, normalmente de cor branca, atraem abelhas europeias, africanizadas e indígenas (famílias Apidae e Anthophoridae) e algumas aves, colaboradoras eficazes na polinização. E não são beija-flores, pois os araçás produzem pouco néctar. São passarinhos frugívoros - como o sanhaço-azulão (Thraupis sayaca) e o sanhaço-papa-laranja (Thraupis bonariensis) - que, em algumas ocasiões, tocam acidentalmente as flores quando estão se alimentando das pétalas. Esses polinizadores ocasionais são observados com mais frequência em áreas cultivadas de araçá no Sul do País. Há, ainda, o caso de uma mosca do gênero Ormidia, da Amazônia Central, polinizadora de 10 espécies dessas mirtáceas.

A maioria dos araçás maduros é amarela ou amarelo-esverdeada, mas existem espécies de cores vivas e atraentes como o araçá-vermelho (Psidium cattleyanum). Outra característica do gênero Psidium é produzir até 250 sementes por fruto, bastante rígidas (resistentes). Seduzidos pela polpa carnuda, os animais acabam como bons dispersores de novo araçás. Os candidatos são numerosos: antas, lobos-guará e mamíferos menores rondam os pés, atrás de frutos caídos; macacos e saguis se esticam e puxam os ramos para alcançar os frutos nas pontas; e aves relativamente grandes - como maritacas, sabiás, tucanos e jacutingas - procuram se equilibrar nos galhos flexíveis atrás da recompensa saborosa.

O gênero Psidium, por sinal, é considerado recordista na atração da fauna entre as plantas frutíferas pesquisadas no País: 9 entre 10 grupos de animais dispersores frequentam as árvores de goiabas e araçás.

No Sul do Brasil, em Atalanta, Santa Catarina, as mudas de algumas espécies de araçás são produzidas em grande quantidade pelo projeto Jardim das Florestas. A iniciativa é da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), em parceria com produtores rurais. Os projetos têm objetivos econômicos e de restauração da Mata Atlântica. Do viveiro florestal, só de araçá-vermelho são produzidas e distribuídas 30 mil mudas por ano. "Sendo uma espécie-chave que contribui fortemente na dieta alimentar de aves, com boas características de dispersão, e sendo uma planta precoce na produção dos frutos (a partir de 3 anos), a espécie deve sempre fazer parte de reflorestamentos com o objetivo de recuperação de áreas degradadas", avalia a bióloga Tatiana Arruda Correia, do Programa Matas Legais da Apremavi.

Plantas frutíferas nativas, como os araçás, são consideradas fundamentais no processo de restauração porque atraem animais que se alimentaram nas proximidades e 'plantam' sementes variadas na área a ser enriquecida.

Na exploração econômica, a rusticidade da planta, a precocidade na produção de frutos e o bom desenvolvimento a campo, representam boas perspectivas ao produtor. Os frutos são bem aceitos pela população e de grande potencial na industrialização, com possibilidades na fabricação de doces em pasta, cristalizados, geléias, sucos, sorvetes e licores. Os araçás ainda levam grande vantagem sobre os frutos cítricos: possuem 4 vezes mais vitamina C.

Na medicina tradicional, o chá de brotos e folhas jovens serve no combate de fortes diarréias e é recomendado em bochechos e gargarejos nas inflamações da boca e da garganta. As experiências científicas comprovaram o valor ativo antidiarreico e de hidratação.

Com tantas qualidades, bom seria se a garotada de hoje descobrisse os prazeres do encontro com um araçazeiro. É verdade que a turma prefere games de computador... Apesar de todos os poderes virtuais, porém, em nenhum dos jogos eletrônicos é possível ter um aliado como o meu, imbatível na 'guerra de mamona' e, ao mesmo tempo, com direito a saborosos prêmios comestíveis!      

(QUADRINHO DESTAQUE)

Nomes populares:

Araçá, araçá-das-almas, araçá-azedo, araçá-goiaba, araçá-piloso, araçá-guaçu, araçá-peludo, araçá-guaiba, araçá-vermelho, araçá-uaçu, araçá-boi, goiaba, goiaba-branca, araçazeiro, araçá-pera, goiaba-maçã, goiaba-pera, goiaba-vermelha, goiabeira, goiabeira-branca, guaiaba, guaiava, guaíba, guava, araçá-da-serra, araçá-do-cerrado, guariba, guabiroba, araçá-peba, araçá-do-pará, araçá-piranga, araçá-mateiga, araçá-da-praia.

A palavra araçá, em tupi-guarani, quer dizer 'fruto que tem olhos'          

(BOX)

Espécies brasileiras:

Até mesmo a popular goiaba (Psidium guajava) em alguns lugares é chamada de araçá-goiaba. Mas as espécies mais conhecidas como araçá são:

Psidium araca: araçá

Psidium rufum (pilosum): araçá-azedo

Psidium firmum: araçá-do-cerrado

Psidium littorale: araçá-do-pará

Psidium acutangulum: araçá-da-praia

Psidium cattleyanum Sabine: araçá-vermelho

Campomanesia eugenioides: gabiroba, guabiroba

Campomanesia xanthocarpa: guariba, guabiroba

Eugenia stipitata: araçá-boi

(BOX 2) 

Araçá na mesa e na sobremesa

Suco de araçá

Ingredientes:  

2 litros de água 

10 folhas de araçá

15 folhas de hortelã

suco de 4 limões

açúcar ou adoçante a gosto

Modo de fazer:

Coloque no liquidificador todas as folhas, água, suco do limão e o açúcar ou adoçante. Bata por 5 minutos. Coe em peneira fina e adicione gelo. Caso precise coar novamente para filtrar bem o suco, utilize um pano. Sirva bem gelado!

Geléia de araçá com mamão

Ingredientes:

600 g de mamão maduro

400 g de araçá

300 g de açúcar

Modo de fazer:

Retire o caroço das frutas e bata no liquidificador sem água. Coloque num tacho, acrescente o açúcar e leve ao fogo médio por mais ou menos duas horas. A consistência fica a gosto. Sirva no café, da manhã ou da tarde.

fonte: APREMAVI: www.apremavi.org.br