BDRA-38-Patos e marrecas

Luiz Figueiredo   Revista Terra da Gente - Campinas, SP   September 2009

"Truuuco!", grita o jogador de cartas. "Seis, pato!", responde o adversário. "Vem que tem nove, marreco!", retruca o primeiro. Agora, neste momento, em alguma cidade ou lugarejo do Brasil, essa cena do jogo de baralho se repete festivamente. Mas o que o pato e o marreco têm a ver com a história? É só algazarra, apenas o barulho feito pelos jogadores na hora que acreditam possuir as melhores cartas na mão. O grito intimida, assusta e até serve de blefe na disputa. E, segundo os apreciadores do jogo, as aves emprestaram a maneira de vocalizar, alto e ao mesmo tempo, criando confusão.

A intenção do jogador é assegurar 'no grito' a vitória sobre o adversário. Já as aves da família Anatidae usam o alvoroço para se defender no jogo da vida. Na estação de acasalamento, que varia bastante de espécie para espécie, a ave utiliza a voz para namorar, marcar território e proteger a ninhada. Em alguns casos, no Brasil, a vocalização dá o nome popular à espécie. É o que chamamos de onomatopéia, quando a pronúncia da palavra imita o som que o bicho faz, caso do irerê (Dendrocygna viduata), por exemplo.

Mas, antes de mais nada, cabe aqui um alerta do biólogo e consultor da Fundação Pró-Natureza (Funatura), Paulo de Tarso Zuquim Antas: "Marreco é a designação da forma doméstica de Anas platyrhynchos, uma espécie do Hemisfério Norte que não ocorre aqui. Usa-se o feminino, marreca, para espécies nativas de patos menores". Os nomes comuns de uma mesma espécie podem variar muito regionalmente também. O mesmo irerê do exemplo acima é conhecido como marreca-piadeira no Sul e paturi no Rio de Janeiro.

No Brasil, são conhecidas 25 espécies de anatídeos residentes e migratórios. No mundo todo são 160 espécies. Em comum, elas têm os rituais de acasalamento marcados por danças e vocalizações, embora o 'estilo' varie conforme a espécie. Todos os casais também se instalam sempre perto de corpos d'água, seja qual for a 'arquitetura' da casa: ninhos de palha, ocos de árvores, cavidades de rocha ou no solo. As fêmeas põem, em média, de 4 a 10 ovos por ninhada e a incubação pode levar até 40 dias, o que é um período longo para aves de seu porte. Longo e arriscado, pois os ovos são visados por serpentes e corujas. Será por isso que o piado de alguns filhotes começa ainda dentro do ovo?

Nos primeiros passeios pelos lagos e lagoas, os filhotes costumam seguir nas costas dos pais. Mas logo demonstram total domínio da arte de nadar e mergulhar, em busca de plantas aquáticas, grãos e pequenos vertebrados. A expectativa de vida, porém, não é das maiores: cerca de 5 anos para a maioria das espécies, com dois ou três adicionais em casos isolados.

Com a maturidade sexual, entre um e três anos de idade, vem a plumagem vistosa, muito explorada pelo homem para os mais diversos adornos, desde tempos bem remotos. A caça para consumo da carne é outra pressão exercida há muito pelos humanos, embora hoje proibida, em todo o Brasil, com exceção dos casos considerados de subsistência. Durante muitos anos, a caça como esporte era autorizada no Rio Grande do Sul. Mais há mais de um ano, também lá a caça é proibida.

Resta a opção das espécies domesticadas, cuja criação é autorizada. Muitos produtores utilizam as penas para confeccionar travesseiros, cobertores e colchões, além de obter ovos, carne e fígado para patês. Mas não falta quem use essas aves como alarmes vivos. Lembra da tal vocalização? Pois é, patos e marrecas estão sempre alerta e partem para a 'agressão verbal' ao menor sinal de movimentação estranha.

"O nativo pato-do-mato (Cairina moschata), aquele pato preto com verrugas vermelhas na cara, é hoje um dos nossos patos mais hibridados. Cria-se com relativa facilidade em cativeiro", comenta Isaac Simão Neto, analista ambiental do Centro de Pesquisa para a Conservação de Aves Silvestres de Santa Catarina (Cemave/Santa Catarina). Segundo ele, não é raro que os híbridos também sejam férteis, mesmo no cruzamento com espécies exóticas, portanto temos uma boa variedade de patos domesticados.

Acostumado a observar patos e marrecas na natureza, o pesquisador comenta que as aves de banhado são mais fáceis de avistar do que as dos rios. E é na Estação Ecológica do Taim (RS) que se concentram os grandes grupos de espécies brasileiras. Embora ainda não existam muitos guias de observadores de aves especializados nessa família, alguns dos que trabalham com turistas no Parque Nacional da Lagoa do Peixe (RS) já reconhecem uma ou outra espécie.

Os patos e as marrecas são realmente observados de perto pelos analistas do Cemave, com apoio de órgãos ligado à Saúde, por causa do vírus da gripe aviária, que pode pegar carona com as aves migratórias e ser transmitido às pessoas. O controle é feito com retirada de sangue e anilhamento, principalmente nos estados do Rio Grande do Sul, Pará e Amapá, onde há grandes áreas de pouso. Em geral, as aves migratórias chegam por aqui durante o inverno rigoroso em outras regiões do Planeta, para se alimentarem.

Embora crucial para a conservação dessas aves, o conhecimento das rotas migratórias dos patos e das marrecas no País ainda é parcial. Sabe-se da existência de um grande sistema de migração entre o litoral gaúcho e a Argentina - rota usada pelo marrecão (Netta peposaca) e pela marreca-caneleira (Dendrocygna bicolor). Porém, falta conhecer exatamente as vias usadas pelas aves e, o mais importante, os locais onde param para descansar, pois essas áreas são fundamentais para sua sobrevivência e devem ser protegidas da fragmentação; da contaminação por pesticidas; da poluição doméstica, agrícola e industrial; de aterramentos e outras alterações capazes de impactar as aves.

É importante lembrar que algumas delas percorrem distâncias imensas, caso da marreca-de-asa-azul (Anas discors) e da marreca-arrebio (A. acuta), cuja reprodução ocorre no Canadá e no Alasca e a alimentação depende do bom estado das áreas de pouso brasileiras, sobretudo na região Nordeste. Sua principal rota de chegada passa pela costa Norte do País, do Amapá ao Ceará. As lacunas de conhecimento são ainda maiores quando se trata de rotas migratórias dos anatídeos no Pantanal, Amazônia e nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. Existem claros movimentos migratórios acompanhando as épocas de chuvas, mas faltam muitas informações.

A perda da qualidade do ambiente e dos corpos d'água pode ser desastrosa para patos e marrecas. A maioria das espécies do Brasil é filtradora de fundo ou da coluna d'água e, sem água de boa qualidade, todo o ecossistema é afetado.

Um grande problema no passado foi o uso de pesticidas organoclorados em doses altas para matar marrecas, devido ao dano (efetivo ou suposto) causado à produção de arroz irrigado. Com o virtual banimento desses produtos e sua substituição por organofosforados, o envenenamento diminuiu. A vida útil dos organofosforados também é mais curta no ambiente e seus danos colaterais são menores.

Já os impactos por drenagem de banhados, brejos e assemelhados é crescente. "A diminuição de hábitats causa danos importantes para muitas espécies em todo o País", reitera Paulo Zuquim Antas. "Paradoxalmente, o homem cria ambientes aquáticos artificiais - como os pequenos açudes do Nordeste ou do oeste gaúcho - e algumas espécies conseguem se adaptar a esses novos ecossistemas, caso do marrecão no Rio Grande do Sul e da marreca-de-asa-azul no Nordeste". Se puderem viver em segurança pelo menos nestas 'pousadas' substitutas, não faltarão piados para quebrar o silêncio ao amanhecer.

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Entre a barragem e a soja

Paulo de Tarso Zuquim Antas é biólogo

Os patos formam um conjunto de espécies reconhecidas pelo seu bico único, evoluído para filtrar o alimento das águas ou do solo. Entretanto, um gênero, Mergus, especializou-se em utilizar a visão e caçar presas vivas com um longo bico serrilhado e em extensos mergulhos. Para isso, necessitam de águas límpidas, transparentes. É o caso do pato-mergulhão (Mergus octosetaceus), incluído em todas as listas nacionais e internacionais de espécies ameaçadas justamente por depender de rios de águas claras e rápidas.

São fatores de risco para sua sobrevivência: a construção de barragens; o aumento do nível de sedimentos em suspensão, resultado da erosão após a implantação de pastagens e lavouras; e a alteração da qualidade físico-química da água (poluição por venenos agrícolas, adubos e esgotos), capaz de afetar a cadeia alimentar.

Na Chapada dos Veadeiros (GO), a espécie foi descrita no início da década de 1950 e novamente registrada apenas em 1987, dentro dos limites do Parque Nacional. Em 2004, na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Campo Alegre (GO), um casal de patos-mergulhões foi filmado no rio dos Couros. Posteriormente, as aves voltaram a ser avistadas no local e dois ninhos foram localizados (conhecem-se menos de 20 da espécie). Outros dois ninhos foram mapeados no Parque.

A partir de agosto de 2007, a Fundação Pró-Natureza iniciou um trabalho financiado pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza para avaliação de população e estudos do pato-mergulhão nas cabeceiras do rio Tocantins. Foram localizados novos indivíduos e 4 dessas aves foram monitoradas por radiotelemetria.

Infelizmente, uma barragem projetada para o rio Tocantizinho (Mirador) afetará todo o baixo curso do rio dos Couros e parte dos afluentes na RPPN, exatamente a área habitada pela espécie. Outra barragem, na foz do Tocantizinho, inundará uma parte importante da RPPN Cachoeira Bonita. E várias PCHs (pequenas centrais hidroelétricas) estão planejadas para o mesmo rio. Tudo isso pode inviabilizar a presença do pato-mergulhão. E não é possível transferir as aves, pois na parte alta da bacia cresce a ocupação das terras por plantios mecanizados de grãos, tornando as águas cada vez mais turvas.

Há uma evidente necessidade de avaliarmos se o uso do solo planejado avançará, em detrimento dessa espécie e seu ambiente único, levando ambos para a extinção, ou se podemos manter as condições necessárias à sua vida.

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Valeu a pena esperar

Até outro dia, comer carne de pato, no Brasil, era quase um exercício de paciência, com meia dúzia de restaurantes nacionais oferecendo a especialidade. Isso sem falar na obviedade do mote - quase sempre a eterna e manjadíssima (ainda que muito saborosa) versão afogada em um denso molho de laranja, feito a partir dos sucos da carne da ave, combinados com a acidez e o aroma característico do suco da fruta. Essa preparação tem a ver com os imigrantes europeus que mais nos influenciaram - os portugueses e os italianos. Com o tempo, o clássico foi reforçado pelos chefs franceses que vieram para o Brasil, preparando versões até então nunca vistas por aqui - como as versões com azeitonas pretas,  os cortes confit (curtidos em gordura da própria ave) e as dezenas de versões do magret (peito).

Dada a dificuldade de se encontrar a carne de pato nos supermercados foi necessária a introdução de cortes da ave - peito, coxa e sobrecoxa - para que os produtores nacionais aumentassem a oferta e a distribuição. De pato criado em cativeiro, claro, uma vez que a caça de todas as espécies silvestres é proibida em todo o Brasil.

Assim, aos poucos, a irresistível carne de pato passou a ser mais acessível. Nossa receita desta edição é um clássico lusitano, que também pode ser apreciado em alguns restaurantes portugueses em funcionamento no Brasil, ainda que se trate de uma preparação bastante comum nas residências portuguesas.

Arroz de pato

Ingredientes (para 6 pessoas)

1 pato de, no máximo, 2 kg

Sal e pimenta-do-reino a gosto

Azeite, o quanto baste

Água quente, o quanto baste

4 xícaras de arroz pronto, em temperatura ambiente

2 cebolas fatiadas em lâminas bem finas

100g de amêndoas em lâminas, tostadas suavemente

1 maço pequeno de salsa bem picada

1/2 xícara de chá de vinho branco

2 gemas de ovo peneiradas

Preparo:

Aqueça o forno em 200 graus por 10 minutos. Tempere o pato, esfregando na carne o sal e a pimenta, e regando com um pouco de azeite por dentro e por fora da ave. Passe para uma assadeira, cubra com papel alumínio e asse por 40 minutos, escorrendo o excesso de gordura da assadeira a cada 15 minutos.

Retire o papel alumínio, pincele um pouco de azeite na ave e deixe no forno por mais 15 minutos, até a carne corar bem. Deixe que esfrie e remova as peles, as cartilagens e os ossos, desfiando a carne com as mãos ou com uma faca bem afiada. Reserve.

Em uma panela ou frigideira grande, coloque as cebolas em lâminas e cubra-as até a metade com azeite de oliva. Leve ao fogo moderado e deixe frigir até que as cebolas fiquem bem murchas e comecem a corar.

Junte a carne de pato desfiada e misture bem, deixando que esquente novamente. Regue com o vinho branco, deixe por mais 5 minutos em fervura e retire do fogo. Passe o pato para um refratário e reserve.

Misture o arroz às amêndoas, mexendo bem. Coloque a salsa e misture bem.

Cubra o refogado de pato com o arroz, pressionando levemente. Usando as costas de uma colher, espalhe as gemas peneiradas sobre o arroz; polvilhe um pouco de sal e leve ao forno bem quente por 20 minutos, ou até corar a superfície.

Sirva com brócolis com alho na manteiga.