BDRA-32-O grito da jacutinga

José Alberto Gonçalves Pereira   Revista Terra da Gente - Campinas, SP   April 2009

Um mistério preocupa biólogos que realizam pesquisas com aves e mamíferos dispersores de sementes na Floresta Atlântica. Ave estratégica para o bioma, a jacutinga (Aburria jacutinga) não mais é avistada com facilidade, como ocorria até meados desta década, no Parque Estadual Carlos Botelho (PECB). A área protegida tem quase 38 mil hectares e detém a maior população continental dessa espécie, da família Cracidae. O parque fica no contínuo ecológico da Serra de Paranapiacaba, no Sul do Estado de São Paulo, inserido no mais significativo remanescente da Mata Atlântica brasileira.

Não surpreende saber que a jacutinga - considerada um excelente indicador ecológico - sumiu do mapa em regiões sob forte pressão de especuladores imobiliários, caçadores e palmiteiros, tais como a Serra do Mar, o Alto Paranapanema e o Vale do Ribeira. O sinal amarelo acende, porém, com seu sumiço justamente em Carlos Botelho, uma das 'jóias da coroa' nos 7% que sobraram dessa floresta. Por seu excelente estado de conservação, só na última década o parque motivou uma centena de pesquisas sobre fauna e flora e é visto como um bastião da biodiversidade.

A jacutinga é uma ave de porte médio, parece uma galinha com hábitos florestais. Quando voa, faz um barulho provocado pelo contato das penas finas de suas asas com o ar, um 'rasgar de asas' imitado até em algumas músicas instrumentais. Pesa no máximo 1,5 quilo e tem 70 centímetros de altura. Faz ninho em bromélias e galhos grossos. Durante o dia, perambula sozinha ou em bando, tanto pelo chão como no alto das árvores, atrás de frutos como os de palmito-juçara (Euterpe edulis) e da embaúba (gênero Cecropia). Pode ser vista comendo frutos junto com outras aves menores e mais leves, como os tucanos. Segundo o biólogo Alexsander Zamorano, pesquisador do Instituto Florestal (IF), de São Paulo, a jacutinga usa muito mais a copa das árvores que seus parentes jacus, e também voa mais alto, sobretudo na época de reprodução. 

Por seu jeito manso e pouco discreto, sempre foi alvo fácil para caçadores e palmiteiros, em sua ampla área de distribuição, da faixa de Mata Atlântica do Brasil ao Nordeste da Argentina e Leste do Paraguai. Mas as perspectivas de sobrevivência complicaram com o avanço da agricultura e das cidades sobre a floresta, provocando sua fragmentação e degradação, mesmo onde não houve corte raso.

Gradativamente, a caça e a destruição do hábitat encurralaram a jacutinga, confinando-a em áreas cada vez menores e levando algumas populações à extinção. Abundante até a década de 1950, a ave hoje sobrevive apenas em algumas poucas unidades de conservação, a maior parte no Estado de São Paulo. O total de indivíduos é  estimado em cerca de 7 mil.

Na edição de 2003 da Lista Vermelha de Fauna Ameaçada de Extinção do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a jacutinga é classificada na categoria 'em perigo'. Na versão paulista da Lista, publicada em 2008 pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, consta como 'criticamente em perigo'.

O problema se agrava a partir dos anos 1990 por conta da intensificação do corte criminoso de palmito-juçara, roubado inclusive do interior dos parques. Para a jacutinga, isso se traduz em 2 fatores de pressão: diminuição de uma de suas principais fontes de alimentação e aumento do consumo ilegal de sua carne.

"Há 4 ou 5 anos atrás, eu via bandos de jacutinga quase sempre que saía para fazer fiscalização. No ano passado, só vi uma meia dúzia. Não sei se foi depredação, se diminuiu ou se elas foram para dentro do sertão", conta Salvatino Gaudêncio, de 54 anos, desde 1979 trabalhando como vigia em Carlos Botelho. "É sinal de que alguma coisa está acontecendo", adverte Gaudêncio, considerado um dos mais experientes vigias do parque. Os relatos coincidem com outros depoimentos de vigias, guias, estagiários e pesquisadores que há anos realizam trabalho de campo na região. 

O biólogo Zamorano visita a unidade de conservação mensalmente para coletar dados para um censo de aves. Em 2008, ele avistou somente 4 jacutingas, enquanto em 2007 contou 14 aves e em 2006 foram 23. A ser divulgado até 2010, o censo propiciará um olhar mais seguro sobre o estado da avifauna no parque, municiando autoridades e cientistas na elaboração de estratégias de conservação.

Além dessas avistagens, pouco se sabe sobre a ecologia e a demografia da jacutinga, dados "extremamente importantes, se estamos interessados em manejar populações de uma espécie ameaçada de extinção", assinala Christine Steiner São Bernardo, bióloga da Reserva Ecológica de Guapiara (Regua), do Rio de Janeiro, onde em 2008 teve início um projeto de monitoramento de jacutingas de cativeiro reintroduzidas na mata.

Christine integra um grupo de pesquisadores que se dividiu para percorrer 12 unidades de proteção integral paulistas entre 2000 e 2006 para melhor calcular as populações da ave. As estimativas devem ser publicadas ainda este ano, na revista científica Avian Biology (*). O artigo mostrará que o Parque Estadual de Ilhabela possuía, em 2004 e em 2005, a maior população da espécie, com cerca de 2 mil indivíduos. Carlos Botelho vem em seguida, com 1.400 aves, conforme contagem feita de 2003 a 2005.

Tais estimativas foram elaboradas, no entanto, com base em avistamentos anteriores ao recrudescimento das invasões dos palmiteiros em parques, mais intensas a partir de 2006. E outros levantamentos feitas no Parque Estadual da Serra do Mar e na Estação Ecológica Juréia-Itatins confirmam os maus prognósticos.

Em Carlos Botelho, o esforço para conter a invasão dos palmiteiros tornou corriqueira a presença de viaturas da polícia ambiental ao longo da rodovia SP-139, que corta o parque. Os policiais apóiam os vigias durante incursões de fiscalização mata adentro, pois a resposta dos invasores raramente é pacífica. Em nossa reportagem, cruzamos com diversas na estrada, efetuando o controle de veículos. E vimos várias palmeiras cortadas na beira da mata, num ponto que até meados desta década era um dos mais favoráveis para se avistar a jacutinga.

É possível que a ave tenha se refugiado nas partes mais interiores do parque, devido à escassez de seu alimento favorito nas proximidades da SP-139. Se confirmada pelos pesquisadores, a hipótese trará esperanças de recuperação da população da espécie ou, pelo menos, de estabilização do declínio. Contudo, a concentração das jacutingas numa área menor também leva a um estado de estresse, devido à disputa por alimento e espaço, segundo observa Clayton Lino, presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA).

"A jacutinga é muito caçada e suas populações diminuem em todos os parques. Era a ave mais abundante na Mata Atlântica e hoje é uma das mais raras", observa Mauro Galetti, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Rio Claro) e especialista em aves e mamíferos dispersores de sementes. Segundo ele, pelo menos 30 espécies de aves e 15 de mamíferos da Mata Atlântica alimentam-se dos frutos do palmito-juçara e depois distribuem as sementes pela mata. "A perda desses animais afeta também a regeneração do juçara", diz. "Na verdade, se você matar todas as arapongas, as jacutingas e os tucanos, 80% das sementes de palmito não serão dispersas".

O pesquisador chama a atenção, ainda, para o papel estratégico dessas aves na conservação em tempos de mudanças climáticas: "O palmito-juçara é a única espécie vegetal que frutifica mesmo em anos de La Niña, quando nossos verões são frios e a floresta praticamente não produz frutos. Com o aquecimento global, a frequência de anos de La Niña irá aumentar."

Normalmente, as jacutingas migram ao longo do ano seguindo o calendário de frutificação do palmito. A palmeira começa a dar frutos na parte baixa do parque, a 50 metros de altitude, em Sete Barras, a partir de abril. Depois, os frutos amadurecem nas partes mais elevadas até chegar, no último trimestre do ano, a altitudes de até mil metros. Em tese, é isso o que deveria estar ocorrendo nas serras do Mar e de Paranapiacaba. Contudo, a pressão humana já alterou o comportamento da espécie. "Durante o levantamento de animais que fizemos para o plano de manejo de Carlos Botelho era muito difícil avistá-las, e quando avistadas, possuíam comportamento evasivo, típico de regiões onde a caça é frequente", assinala Rafael Bueno, orientando de Galetti na Unesp. "Na região da sede, os avistamentos caíram drasticamente, sendo o último há 8 meses."

Graças ao relativo isolamento, a área onde em 1982 foi criado o Parque Estadual Carlos Botelho conseguiu manter excelente estado de conservação. Entretanto, o mesmo isolamento hoje dificulta as ações contra os invasores. "A pressão cresceu bastante nos últimos 2 a 3 anos. Quando sobrevoamos o parque de helicóptero, vemos facilmente os ranchos dos palmiteiros", diz José Luiz Camargo Maia, diretor do parque, que empreende uma batalha heroica para cuidar desse valioso patrimônio público com sua equipe de 30 funcionários.

Segundo Maia e o tenente Edson Marcelo Pinto de Moraes, comandante da Política Ambiental na região, as invasões aos parques cresceram no Vale do Ribeira e no Alto Paranapanema à medida que o estoque de palmito esgotou-se nas regiões vizinhas. Eles acreditam que a maior parte do palmito apreendido hoje já é proveniente das unidades de conservação. "Encontramos vestígios dos palmiteiros em locais de acesso cada vez mais difícil. Precisamos caminhar 10 a 12 horas dentro do mato para achá-los", revela o tenente. "E os bichos estão desaparecendo nesses locais". 

O núcleo do parque mais visado pelos palmiteiros é o de Sete Barras, no Vale do Ribeira, não por acaso uma área muito pobre e sem alternativas econômicas capazes de absorver a mão-de-obra local. Uma operação de socorro à jacutinga e a outros bichos ameaçados - como o muriqui (Brachyteles arachnoides) - consta do plano de manejo e inclui o desenvolvimento de opções de renda para moradores do entorno do parque, além do incentivo ao ecoturismo e à gestão da pesquisa científica.

Mas também é preciso reestruturar a fiscalização, hoje feita por 12 vigias. "É muito pouco. Um parque do tamanho do Carlos Botelho necessita de um efetivo de guarda-parques de pelo menos 30 a 40 homens", recomenda Galetti. "Os vigias conhecem a região, mas não andam armados. Palmiteiros e caçadores, sim. O ideal é ter um grupo de guarda-parques armados e treinados com técnicas de guerrilha na selva."

Os 12 vigias estão a um passo de requerer aposentadoria e deverão ser substituídos por guarda-parques aprovados em um concurso público realizado em 2006. Segundo informações da Secretaria do Meio Ambiente, os 357 candidatos aprovados para todo o Estado serão convocados até 2010. Mas há o risco de não se transmitir a experiência dos atuais vigias aos concursados.

Galetti compara a vigilância feita no Brasil com a da Argentina, onde há cursos de nível superior para formar guarda-parques. "Os parque argentinos são bem mais protegidos que os brasileiros. Se o Estado não proteger sua biodiversidade, quem protegerá? Mineradoras, palmiteiros e caçadores, não. Nem o público, que não frequenta as unidades de conservação."

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Plano de manejo incentiva ecoturismo

Aprovado em setembro de 2008 pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo (Consema), o Plano de Manejo do Parque Estadual Carlos Botelho recomenda várias medidas para melhorar o sistema de gestão e proteção. Entre outras diretrizes, o zoneamento estabelecido proíbe a visitação em algumas áreas (zonas intangíveis), onde a natureza permanece mais próxima de seu estado primitivo. Em compensação, permite a prática do ecoturismo nas demais. E sugere a implantação de uma zona de amortecimento em volta do parque para favorecer ações integradas de proteção, realizadas em parceria com agricultores e a comunidade.

Também está previsto o monitoramento de espécies ameaçadas de extinção, como a jacutinga. "Já executávamos várias das orientações constantes do plano, de maneira empírica. Agora, o plano ajuda a consolidar estratégias e reforçar áreas de maior vulnerabilidade", avalia o diretor José Luiz Camargo Maia. Ele aponta as prioridades:

Ecoturismo - Projeto financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) investirá R$ 3,7 milhões no núcleo Sete Barras até 2010, com a reforma do centro de visitantes e a construção de módulos de hospedagem e restaurante. O ecoturismo é visto pelo governo como instrumento para inibir invasões de palmiteiros e gerar renda no entorno do parque.

Estrada-parque - A rodovia SP-139 não será asfaltada, mas deve virar estrada-parque de fato, com quiosques e pontos de observação e descanso.

Palmiteiros - As atividades de ecoturismo e fiscalização devem ser integradas com as do Parque Estadual Intervales, sobretudo no rio Quilombo, uma área de rica beleza cênica entre as duas unidades.

Pesquisa e visitação - Ainda sem previsão de implantação, o plano recomenda a instalação de alojamento para pesquisadores e a promoção da visitação pública também nas bases do Turvinho e Varginha.

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O bom selvagem

Com sua origem selvagem, sabor excepcional e textura de delicadeza incomparável, o palmito - em todas as suas variedades - caiu nas graças de chefs do mundo inteiro. É perfeito para a criação de receitas populares ou sofisticadas, numa lista sem fim de entradas, saladas, sopas, guarnições e pratos principais em que o ingrediente revela sua grande capacidade de adaptação quando misturado com produtos nobres ou da cozinha cotidiana. A receita desta edição segue este caminho: um molho consagrado, as ervas aromáticas e o palmito como 'estrela', numa combinação equilibrada e perfeita para acompanhar pratos à base de aves, peixes ou carnes.

Antes de adquirir o palmito, porém, verifique sempre se a procedência é legal, de áreas cultivadas ou de manejo autorizado.

Gratinado aos quatro queijos com ervas

Ingredientes (para 4 pessoas)

500 g de palmitos da sua preferência, em conserva, cortados no sentido do comprimento

6 colheres (sopa) de manteiga

4 colheres (sopa) de farinha

1 litro de leite aquecido

1 pitada de noz-moscada

150 g de queijo gorgonzola picadinho

150 g de requeijão cremoso de corte

100 g de queijo parmesão ralado finamente

100 g de queijo mozarela picado

3 colheres (sopa) de alho-poró picado finamente

2 colheres (sopa) de alecrim fresco

2 colheres (sopa) de salsa picada

2 colheres (sopa) de cebolinha verde picada

Preparo:

Escorra os palmitos, passe rapidamente pela água fria e seque bem. Corte e reserve (os palmitos podem ser cortados de outra maneira, em rodelas, por exemplo, mas é importante que não sejam pedaços muito pequenos).

Derreta 4 colheres de manteiga em uma panela levemente aquecida. Antes que comece a escurecer, junte a farinha de trigo peneirada e trabalhe com uma colher de pau até obter uma pasta homogênea e amarela. Abaixe a chama do fogão e acrescente o leite aquecido, uma pitada de sal (os queijos já têm sal, além do próprio palmito) e a noz-moscada. Siga mexendo até obter o molho branco. Junte ao molho o gorgonzola, o requeijão, a mozarela e 100 g do parmesão. Deixe ferver em fogo moderado, sem parar de mexer. Retire do fogo.

Aqueça o forno em 200 graus. Em outra panela, coloque a manteiga restante e deixe ferver. Abaixe o fogo e acrescente o alho-poró, deixando que refogue sem escurecer. Junte o alecrim, a salsa e a cebolinha e deixe refogar mais um minuto. Despeje o refogado de ervas no molho e mexa bem.

Monte o prato: coloque um pouco de molho na base do refratário, distribua os palmitos e cubra com o restante do molho. Polvilhe o parmesão restante e leve ao forno para gratinar.

(*) BERNARDO, C. S. S. ; RUBIM, P. ; BUENO, R. S. ; GOBBO, S. K. ; STEFFLER, C. E. ; DONATTI, C. I. ; DENZIN, C. ; MARQUES, R. M. ; BOVENDORP, R. S. ; MEIRELLES, F. A. ; BEGOTTI, R. A. ; Galetti, M. . The plight of a large game bird: Status of jacutinga populations (CRACIDAE, Aburria jacutinga) in the Atlantic rain forest. Studies in Avian Biology, 2009.