Honorable Mention

BDRA-31-Paisagem sem preço

João Prudente   Revista Terra da Gente - Campinas, SP   June 2009

O nevoeiro bem baixinho deixa a paisagem quase branca, sem visibilidade, e faz a temperatura despencar. Ao lado do filho, Sebastião Rodrigues procura algumas cabeças de gado desgarradas no sopé da serra do Pico do Papagaio. Não demora muito, a 'fumaça' começa a subir. "De um capão de mato isolado sai uma onça-parda, bem perto de mim", conta Tião Ferreira, como é mais conhecido no bairro da Pedra, vale do Matutu, Minas Gerais, onde nasceu e se criou poeta. "Assim que ela me vê, para, me encara e começa a 'resmungar'. Por instinto dou um assobio e os cachorros vêm correndo. É a minha salvação. Assim que o felino vê a canzoada, entra em disparada mata adentro. Na hora pensei comigo: hoje ocê num vai comê eu, não, dona onça!"

O Pico do Papagaio é o cartão-postal da região de Aiuruoca. Como o Pão de Açúcar (RJ), é um maciço de gnaisse - rocha dura composta de quartzo e feldspatos - com vista para o vale do Matutu, na porção Norte da Serra da Mantiqueira. O vale é um santuário preservado na microbacia do ribeirão da Água Preta. Outros moradores dizem que por lá também já viram onças e felinos menores. "Na comunidade aqui do vale, decidimos não ter cachorros e gatos, pois moramos em meio a uma biodiversidade rica e diferente, e é melhor vivermos de acordo com as características desse local", conta Manno França, geógrafo, morador do vale e presidente da Fundação Matutu.

A ocupação do vale pelos 'de fora' - assim como são conhecidos pelos nativos - começou na década de 1970, por pessoas oriundas de grandes centros urbanos, atraídas pela beleza natural e em busca de uma qualidade de vida melhor, em contato direto com a natureza. O propósito era cultivar valores esquecidos, espirituais, principalmente na linha esotérica. A partir dos anos 1980, devido ao rigor das leis ambientais, entram em decadência os roçados feitos em encostas, e muitos nativos buscam emprego nas indústrias do vale do Paraíba. Nessa época, o pai de Manno, Guilherme França, comprou terras em uma das encostas do vale, quase toda coberta por florestas, com o objetivo de preservar as nascentes. Entusiasmado com a beleza cênica do lugar, ele investe em outras áreas e as transforma em  Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), preservando 80% e destinando o restante (20%) à ocupação humana e atividades silvoagropastoris.

A comunidade dos 'de fora' então se uniu a alguns nativos interessados na proteção do vale e foram organizadas a Fundação Matutu e a Associação dos Moradores (AMA), com sede em um antigo casarão de pau-a-pique, coração e referência da região. Hoje, o Casarão é ponto de partida para diversos atrativos turísticos, alcançados a pé ou a cavalo. À sua volta estão a escola, o posto de saúde, uma pequena cooperativa e uma loja de artesanato.

"Todas as casas na comunidade são equipadas com fossas sépticas e suas cores são mais leves, próximas às da terra, cobertas com telhas de cerâmica. Os fios elétricos são subterrâneos e não se vê qualquer tipo de poluição visual aqui na reserva. São cuidados que temos para retribuir, um pouco, pela beleza natural desse lugar", relata Manno. As lâmpadas externas, das varandas das casas, ficam escondidas, encostadas nas paredes, para não interferir nas atividades da fauna noturna.

No vale do Matutu já foram identificadas 293 espécies de aves e a lista deve chegar a 350 com mais alguns levantamentos, caracterizandose como um dos locais mais ricos em avifauna na Serra da Mantiqueira. Para enriquecimento das matas, a comunidade elegeu a araucária (Araucaria angustifolia) como prioridade e já plantou mais de 50 mil mudas. A meta é plantar mais 5 mil mudas por ano, até recompor o 'mar de araucárias' em meio a um 'oceano de montanhas', conforme descreveu o naturalista e botânico francês Auguste Saint-Hilaire, que por ali fez uma expedição em 1822. O enriquecimento ainda inclui outras espécies nativas, como guatambus, cedros, jacarandás, pitangas e ipês. 

O vale do Matutu está parcialmente inserido no Parque Estadual da Serra do Papagaio - criado em 1998 e ainda não implementado - e na área reconhecida em 1995 como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Devido ao aumento das restrições ambientais ao longo dos anos, a Fundação Matutu desenvolveu o Programa de Agroecologia de Altitude, um 'pacote' de técnicas agrícolas que dispensam o uso de fertilizantes químicos ou agrotóxicos. O programa estabeleceu parcerias com a extensão rural; com órgãos ambientais, federais e estaduais, e com os governos dos municípios vizinhos ao parque. E todos saíram ganhando. Foram valorizados os produtos tradicionais da região: queijos, frutas, mel e geléias, artesanato e ervas medicinais. Com itens diferenciados e de qualidade, a comunidade venceu inclusive a imagem dos orgânicos como 'as plantinhas mais feias e caras do supermercado'.

O turismo é uma fonte de renda importante, porém a preocupação de todos é evitar o 'turismo de massa'. Todas as atividades são acompanhadas por guias ligados à associação, sempre prontos a destacar o conteúdo educativo e a preservação ambiental. "Há um tempo atrás um grande executivo de São Paulo queria comprar uma área nossa, em cima da serra, todo plano - a Macieira - um lugar maravilhoso. Planejava fazer ali um aeroporto para seu jatinho e construir uma mansão", relata Manno França. "Começou oferecendo um valor e foi aumentando, tentando negociar de qualquer jeito. Meu pai disse que a área não estava à venda, não interessava quantos zeros ele acrescentasse no valor. E encerrou a conversa".

Cachoeiras e córregos de águas cristalinas estão entre as principais atrações do Matutu. As cachoeiras do Fundo ('fundo' do vale) e Três Marias podem ser avistadas de quase todas as trilhas. E servem de marco para as caminhadas em campos de altitude, em meio a remanescentes de floresta primária. É preciso um bom preparo físico, muita disposição e lanche para essas caminhadas, pois algumas rotas duram o dia inteiro. As duas mais visitadas são a do Pico do Papagaio, passando por altos paredões e com vista panorâmica de 360 graus a 2.100 metros de altitude; e a da Cabeça do Leão, cujas formações rochosas lembram um portal, a 1.600 metros de altitude. Outras opções são: Pico do Bandeira, Mirante do Gamarra, Alto da Canjica, Estreito, Mirante do SD e, claro, o platô da Macieira, aquele de rara beleza e vista impagável.

O apogeu econômico da região data do Século 17. "Dizem que tinha muito ouro aqui, mas eu mesmo nunca achei uma pedrinha sequer. Como também não procurei, só fiquei mesmo foi na vontade", diverte-se Tião Ferreira. Devido ao acesso difícil, mesmo no auge da mineração de ouro o Matutu se manteve preservado. E é assim que seus moradores preferem, como bem resume Vitório Marçolla, da Pousada Pedra Fina: "Às vezes existem divergências entre os moradores. Mas, no final, somos como os gauleses: quando os 'romanos' chegam, todos se unem".  

(BOX)

Sempre alertas

Um gongo feito com disco de arado anuncia, todos os dias, às 6 da manhã e às 6 da tarde, o início e o final do trabalho. Quando tem algum foco de incêndio, o alerta é dado por sentinelas postados no alto da serra. Munidos de rádios e binóculos, eles se comunicam com a sede da associação ao menor sinal de fumaça e logo o gongo repete vários badalos rápidos, em sequências repetidas 3 vezes. O som se espalha pelo vale e em 8 minutos os brigadistas de plantão, todos voluntários, estão no almoxarifado para pegar os equipamentos e apagar o fogo.

São 30 brigadistas da comunidade e mais de 400 auxiliares, voluntários também, formados pelo grupo do Matutu, que é referência no combate a incêndios em montanhas. Eles receberam treinamento do Corpo de Bombeiros, do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e da Polícia Militar. Também promovem ações educacionais nas escolas do município, órgãos públicos, com foco na importância da prevenção e da proteção ambiental para evitar maiores impactos causados pelo fogo. E sempre que o Parque Nacional de Itatiaia, ali vizinho, precisa de ajuda, o grupo do Matutu está pronto para socorrer.