BDRA-30-Na boca do Velho Chico
João Prudente Revista Terra da Gente - Campinas, SP February 2010
Enquanto mulheres lavavam as roupas em meio a muita cantoria, à beira do rio São Francisco, crianças com pequenas varas de taquara, sem muita algazarra, faziam bonito: tiravam piabas das águas, uma atrás da outra. Entre os garotos, um se destacava, incansável. O esforço se justificava, pois estava ali o sustento da mãe e dos irmãos menores. A cena era cotidiana há mais de 60 anos, em Penedo, cidade histórica alagoana, a primeira fundada às margens do Velho Chico. Antonio Gomes dos Santos era o menino esforçado e, tendo se dedicado à pesca desde os 12 anos, não podia ganhar um apelido diferente: Toinho Pescador.
"Todos os dias pegava tanto peixe que dava, vendia e ninguém passava fome", conta ele, aos 79 anos. "Tudo isso aconteceu, é claro, antes da construção das barragens. Foram elas as maiores adversárias não somente do rio, mas também dos pescadores, pois o rio perdeu seu curso".
Ali em Penedo, em 1859, os avós de Toinho assistiram à chegada da comitiva de barcos a vapor de Dom Pedro II e sua esposa, a Imperatriz Dona Tereza Cristina, em visita de dois dias à cidade. Naquela época, o imperador já previa problemas e se preocupava com o futuro do rio, a ponto de registrar em seu diário: "Já chamei a atenção do Presidente de Alagoas como são nocivas as tapagens, principalmente em relação à procriação dos peixes". Tapagens era o termo mais usado na época para qualquer barramento de cursos d'água, com a finalidade de abastecimento da população, para facilitar a pesca ou mesmo para gerar energia, já que a primeira hidrelétrica do País começou a funcionar em 1883, ainda no Segundo Império.
Atualmente, as cidades da foz do São Francisco - Penedo e Piaçabuçu, do lado alagoano, e Santana do São Francisco, Neópolis, Ilhas das Flores e Brejo Grande, em Sergipe - são obrigadas a conviver com os impactos das 8 barragens construídas sertão adentro. O microempresário e condutor de turismo ecológico de Piaçabuçu, Robério Góes, explica por quê: "O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra (MG), serpenteia por 2.865 quilômetros e banha 5 estados, beneficiando 504 municípios. É abastecido por 101 afluentes, sendo 80 permanentes e 21 temporários. Era um rio que desembocava no mar um volume de 16 mil metros cúbicos de água por segundo, mas atualmente são somente 1.200 m3 por segundo, ou seja, aproximadamente 8% do volume original. O rio não tem mais água e ainda querem fazer sua transposição, ao invés da sua revitalização. É a mesma coisa que querer tirar sangue de um sujeito que está morrendo na UTI".
A salvação das espécies aquáticas está nas lagoas das várzeas. Em tempos de cheia, elas ficam povoadas de peixes e crustáceos, garantindo o ciclo da vida e, de tabela, a sobrevivência das comunidades vizinhas.
Várzea da Marituba, por exemplo, é um santuário ecológico de 18 mil hectares, na divisa dos municípios de Penedo, Piaçabuçu e Feliz Deserto. Por sua paisagem de terras baixas e pela quantidade de aves também é conhecida como Pantanal Alagoano. "A APA (Área de Proteção Ambiental) Estadual da Várzea da Marituba serve de berçário para o rio São Francisco, pois, com as construções das hidrelétricas, os peixes não podem mais fazer a piracema e encontram ali um refúgio onde podem procriar", diz Maciel Oliveira, coordenador de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Penedo.
O refúgio ecológico é rico em fauna e flora, com destaque para as plantas aquáticas, muitas delas endêmicas. Os animais mais comuns - e avistados com frequência - são jacarés-do-papo-amarelo, lontras, capivaras, marrecas, socós, jaçanãs, galos d'água. "Os moradores do vilarejo da Marituba do Peixe evitam degradar e poluir a região, pois sabem que precisam e dependem de sua preservação", arremata Maciel. "Quando ocorre qualquer ação que venha a prejudicar o lugar, comunicam imediatamente às autoridades competentes para que não haja invasores, conflitos e problemas futuros".
Quando termina a época das cheias e o rio volta ao seu curso normal, estes trechos da várzea continuam cheios, garantindo a cadeia alimentar e o ciclo biológico das espécies dependentes da água. Nas comunidades do entorno, enquanto os homens cuidam da pesca artesanal ou da criação em viveiros de peixes, as mulheres trabalham no artesanato produzido com as folhas do ouricuri (ou licuri - Syagrus coronata), uma palmeira abundante na região.
A atividade das artesãs ganhou força com o plantio de 35 hectares de ouricuri, realizado pela Usina Paisa (Grupo Toledo), produtora de açúcar e álcool de Penedo. Empenhados na recuperação das matas ciliares para proteção dos corpos d'água, os responsáveis pela usina se comprometeram a não plantar mais cana na faixa de preservação permanente. "Ao invés de plantarmos cana ao redor dos povoados, plantamos ouricuri e quase todas as comunidades vizinhas estão aproveitando a cultura e, com isso, gerando renda extra para as famílias. Cedemos áreas plantadas com a palmeira, desde que os interessados cuidem delas, assim como das matas ciliares. Eles se tornaram, com isso, vigias permanentes do meio ambiente. E já conseguimos até mesmo conquistar 'mateiros arrependidos', que agora são nossos parceiros e protetores", relata Romulo Patriota, gerente agrícola da Paisa.
Mais perto do mar, a imensidão da praia do Peba, de areias brancas, estende-se até a foz do rio São Francisco e leva à cidade-irmã de Piaçabuçu, mais preservada. O trecho de 21 km é protegido pela APA da Praia do Peba, de âmbito federal, local de desova de 4 espécies de tartarugas marinhas. "Um dos principais motivos para a criação da APA, em julho de 1983, foi para que se tivesse um plano de manejo para a desova das tartarugas marinhas ao longo da praia, especialmente nos últimos 7 km, mas infelizmente isso ainda não aconteceu. A principal causa das mortes das tartarugas é afogamento. Elas são vítimas dos arrastões da pesca do camarão, frequentes na região", conta Robério Góes.
Outro motivo para a criação da área protegida é preservar um dos pontos de descanso de aves migratórias, que todos os anos cruzam os céus, do Hemisfério Norte para o Sul e vice-versa. Entre estas aves destacam-se o maçarico-acanelado (Tryngites subruficollis) e o maçarico-real (Numenius phaeopus).
Ao lado da pequena Piaçabuçu, de 17 mil habitantes, as águas do rio São Francisco se encontram com as ondas do mar. "Existe nos estados de Alagoas e Pernambuco uma grande barreira de corais, que pontilha a costa nordestina e termina exatamente aqui, na Praia do Peba. A partir daqui temos 21 km de belezas naturais em mar aberto até a foz do São Francisco", diz Robério. As dunas - móveis e fixas - em alguns trechos atingem 40 metros de altura. E além dos atrativos naturais, a cidade tem seu lado festivo com tradições culturais e folclóricas bem enraizadas, como os grupos de folguedos típicos, com destaque para Zabumba, Coco, Chegança e Guerreiro.
Essa cultura - vinculada à sua história e às riquezas naturais - é o que os moradores e os turistas querem preservar na foz do São Francisco. Conforme reforça seu Toinho Pescador: "Não somos contra a geração de energia e, sim, contra a extinção da piracema e a perda da força do rio. Se Luiz Gonzaga fosse vivo ficaria decepcionado e jamais escreveria a clássica composição Riacho do Navio, com o verso o São Francisco vai bater no meio do mar. Hoje é o mar que está batendo no meio do rio".
(BOX)
Criatividade em alta
As tramas da palha do ouricuri vão de 'vento em popa' nas mãos criativas das mulheres do Pontal de Coruripe, pequeno vilarejo do litoral Sul de Alagoas, situado a 70 km de Penedo. O sucesso do artesanato feito com as folhas da palmeira incentivou as artesãs a fundarem uma associação, em 1999, quando receberam um pedido de mil viseiras (bonés de praia) encomendadas por uma grande empresa. Daquela época até os dias atuais, as vendas e as encomendas só fizeram aumentar.
"Nós mesmas fazemos a colheita da palha no campo. Leva cinco dias para secar. Procuramos colher apenas um 'olho' da palmeira - dos dois existentes - para que o outro continue a perpetuar a espécie e para que nunca venha a se acabar", conta Maria José de Souza, a atual presidente da Associação das Artesãs do Pontal de Coruripe.
As peças produzidas pelas mulheres são destinadas ao uso doméstico e à decoração. Elas procuram sempre mesclar a palha natural com as tingidas com anilina ou papel celofane, após um processo de 'cura' que leva vários dias. Mandalas e sous plats (suporte para pratos quentes) são o carro-chefe, mas elas ainda tecem grande variedade de bandejas, bolsas, caixas, chapéus, porta-bolos, carteiras, entre outras.
As mulheres recebem apoio da Usina de Álcool e Açúcar de Coruripe, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e da Prefeitura Municipal. "O artesanato mudou a vida de muita gente. Antigamente fazíamos as peças somente para levar o pão para casa. Hoje, com planejamento e planilhas de produção, muitas mulheres já podem comprar seu eletrodoméstico e ajudar na construção de suas casas", relata Edilene Souza, artesã da associação desde a sua fundação. "Trabalhar e poder ganhar nosso próprio dinheiro é excelente e, com isso, nos sentimos verdadeiras empresárias".

