BDRA-29-O encanto do vale
João Prudente Revista Terra da Gente - Campinas, SP April 2009
As águas da 'rota das cachoeiras', assim como as de dezenas de outros pequenos riachos, alimentam o rio Itapocu, compondo a principal e maior bacia do Norte catarinense. O rio se estende por 116 quilômetros - em parte através da região em torno de Jaraguá do Sul - e suas águas são muito utilizadas em todo o vale na irrigação de lavouras, na piscicultura, na pecuária, no abastecimento público e industrial e, claro, para lazer e turismo. A qualidade dos mananciais, além de ser fundamental para os múltiplos usos humanos, também é vital para a flora e a fauna, e, em especial, para os anfíbios, abundantes na região e sensíveis a qualquer anormalidade na composição da água.
Com a preocupação de demonstrar essa conexão ao público, unindo educação ambiental e lazer, o Instituto Rã-Bugio foi criado em 1999 como uma organização não-governamental conservacionista, sem fins lucrativos. A ONG fica num fragmento preservado de floresta, em Guaramirim, município vizinho a Jaraguá do Sul, também em Santa Catarina. Oficializado em 2003, o instituto é dedicado à execução de projetos ambientais direcionados principalmente para crianças e adolescentes das escolas da região. Um dos projetos - Serra do Mar: fonte de água, fonte de vida - pretende popularizar a observação da rica fauna anfíbia como uma maneira de despertar a preocupação com a preservação da Mata Atlântica e de seus mananciais.
"Em média, atendemos 10 ônibus todas as semanas, com aproximadamente 500 estudantes do ensino fundamental e do ensino médio. Por aqui já passaram, desde 1999, quase 25 mil visitantes, entre estudantes, pesquisadores e turistas", conta Elza Woehl, fundadora do Rã-Bugio, juntamente com o marido, Germano.
Uma trilha interpretativa de 1.150 metros permite aos visitantes observar a mata e os anfíbios, sobretudo durante a primavera e o verão, época de reprodução. Além de sapos comuns (gênero Bufo), de rãs de floresta e de riacho (gêneros Chiasmocleis e Crossodactilus), do sapo-martelo (Hypsiboas faber), e claro, da rã-bugio (Physalaemus olfersi), a pequena reserva particular abriga mamíferos - como cachorro-do-mato, jaguatirica, irara, quati, serelepe - e aves - como araponga, trinca-ferro, tangará-dançador, inhambu, uru. Com o patrocínio da Petrobras Ambiental, o programa de educação ambiental da 'mulher-sapo' - como Elza é carinhosamente chamada pela criançada - procura mostrar como a população pode agir em favor do equilíbrio ecológico. "A Serra do Mar é repleta de mananciais, com extraordinária fauna e flora. Nosso principal objetivo é preservar essas fontes de vida e trabalhar com todos - inclusive as crianças - para garantir água de qualidade para as futuras gerações".
Extremamente fragmentada, a Mata Atlântica começa a ser restaurada, mas os esforços ainda são muito pontuais. Em muitos lugares só restaram remanescentes em áreas de difícil acesso e mesmo estes continuam sob forte pressão de ocupação. Em Jaraguá do Sul, o crescimento populacional está acima da média nacional e ameaça até as localidades agraciadas com essa rica biodiversidade, emolduradas pelo relevo ondulado e ainda cobertas por belas florestas primárias ou secundárias.
"Aqui na região, a forte pressão imobiliária sobre áreas preservadas das encostas da Serra do Mar e áreas de nascentes pode conduzir ao colapso da economia local em pouco tempo, principalmente se a mudança no uso das terras levar à escassez de água potável", adverte Germano Woehl Jr.
Ali perto, entre Joinville e Schroeder, com autorização especial é possível subir um morro à antiga, em uma vagonete puxada por cabo de aço, construída na década de 1930. No alto fica a Estação Ecológica do Bracinho, de 4.610 hectares. À primeira vista, o assoalho da vagonete parece um tanto quanto estranho, pois tem em seu piso uma fileira de tábuas pregadas transversalmente. Não demora muito para descobrir para que servem: basta a vagonete começar a subir e elas se 'transformam' em bancos para acomodar os passageiros com maior segurança, aproveitando melhor a paisagem deslumbrante que se descortina diante dos olhos, num mar de montanhas, vales e florestas.
A unidade de conservação estadual protege o entorno da represa do Bracinho, cuja energia abastece a cidade de Schroeder, antigo distrito de Jaraguá do Sul. A Estação Ecológica foi criada em 1984 e abriga uma boa diversidade em fauna - bugios, porcos-do-mato, tatus, antas, jaguatiricas, cotias, várias espécies de macacos e muitas aves da Mata Atlântica - e flora - palmitos, canelas, gabirobeiras, perobas, bromélias e orquídeas. Além de a mata ser primária, em vários trechos ali se preservam arroios, córregos, lajeados, quedas d'águas e cabeceiras de rios importantes para a bacia do Itapocu.
A área protegida não é aberta ao público, porém, abaixo da usina, ao longo do rio Bracinho, há várias opções de atividades para os praticantes de esportes de aventura, como canoagem, bóia-cross, acqua-ride e rafting.
Na vizinha Corupá, próxima de Jaraguá do Sul, a rota das cachoeiras é um escape à crescente especulação. Conhecida como cidade das bananas, devido ao cultivo extensivo dessa fruta tropical, Corupá começa a se destacar também pelo cultivo de orquídeas e bromélias e pelo desenvolvimento do ecoturismo. Catorze cachoeiras geladas e cristalinas compõem uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e podem ser visitadas ao longo da trilha Passa Água. A caminhada dura uma hora e meia, morro acima, em meio a muitas árvores, ar puro e belas paisagens. A maior das quedas d'água - e a mais bonita - é a última, portanto, é bom preparar as pernas. Uma segunda trilha, apelidada de Araçá e com extensão de 2.500 metros, liga a primeira cachoeira à última.
Para os mais ousados, outra maneira de conhecer os trechos de floresta preservada é fazer um voo livre. No município de Jaraguá do Sul, há opções de equipamentos e de voos para iniciantes, amadores e profissionais. Uma das 10 maiores fabricantes de parapente do mundo fica ali e tem naquelas montanhas seu 'campo' de testes. "Voar nos leva a outra dimensão. O voo livre praticado pelo homem é o que mais se aproxima do modo de voar dos pássaros, além de não agredir a natureza", diz Ary Pradi, proprietário da Sol Sports. Ele gosta de lembrar uma frase de Leonardo da Vinci: "Uma vez que você tenha experimentado voar, sempre andará pela terra com os olhos voltados para o céu. Pois lá você esteve e para lá desejará voltar."
Entre os adeptos do esporte - segundo se conta por lá - teria havido um piloto-semeador, que decolava munido de sementes de árvores nativas para dar uma 'ajudinha dos céus' à recomposição natural das matas de encosta. Após as enchentes e deslizamentos de terras ocorridos na região desde novembro de 2008, a cidade de Jaraguá do Sul "está totalmente recuperada e funcionando normalmente com relação à atividade turística", informa Raul Henrique dos Santos, da Divisão de Turismo da Prefeitura Municipal. "Porém, existem lugares que ainda estão em fase de recuperação, principalmente as moradias que foram destruídas e alguns acessos a bairros e zona rural".
Para alguns visitantes, inclusive, manter as reservas de viagem foi uma forma de contribuir para a recuperação das atividades econômicas. Isso era visível em pelo menos um grande evento realizado no início deste ano em Jaraguá do Sul: o Festival de Música de Santa Catarina (Femusc), que contou com a participação de 600 alunos e 50 professores de 28 países, em 2 semanas de apresentações com plateias lotadas.
Colonizada por poloneses, húngaros, italianos e, principalmente, alemães (quase a metade da população), Jaraguá do Sul tem também afrodescendentes, pois no Século 18 muitos negros foram levados para trabalhar na cultura da cana-de-açúcar e depois permaneceram na região. A mistura cultural está presente nos pratos típicos, arquitetura e costumes, com destaque para a Schützenfest ou Festa dos Atiradores. Trata-se de uma comemoração de origem alemã, organizada pela Associação dos Clubes e Sociedades de Tiro do Vale do Itapocu no mês de outubro, cujo intuito é preservar a tradição do tiro esportivo, com direito a eleições de 'reis' e 'rainhas', além dos melhores atiradores de carabina, chumbinho, seta, peca (jogo semelhante ao fliperama) e bolão de mesa. "Na Alemanha já não existe mais essa tradição", conta Waldino Hornburg, atual presidente da Aliança. "Os alemães quando vêm para cá ficam admirados com a festa".
Para os turistas, a comunidade italiana do bairro Nereu Ramos é uma das mais animadas. Além de manter um museu temático, sempre tem um grupo de músicos para cantar as saudades da terra amada. E nunca falta o hino dos imigrantes italianos no Brasil: 'Mérica, mérica', de Ângelo Giusti.
(BOX)
Com repolho se mede a acidez da água
Com uma receita caseira, simples e barata é possível saber se a água do rio, córrego, lago ou poço mais próximo - ou mesmo a água da chuva - é neutra, básica ou ácida. Quem ensina é Elza Woehl, do Instituto Rã-Bugio, repassando o que aprendeu com uma aluna de doutorado da Universidade de Santa Catarina (UFSC). Vale lembrar que o pH 7,0 é o ideal para a vida aquática, embora muitos rios da região tropical - sobretudo os de águas escuras - sejam naturalmente ácidos.
Material:
Algumas folhas de repolho roxo
1 tigela
1 panela
1 peneira
a água a ser avaliada
Procedimento:
Separe e pique algumas folhas de repolho roxo dentro de uma panela. Adicione um pouco de água da torneira e ferva por 10 minutos. Deixe esfriar, coe e reserve. Este será seu 'suco indicador'.
Coloque a água (de rio, lago, poço ou chuva) em uma tigela (branca, de preferência) e jogue o 'suco indicador'. Observe a cor. Se não houver mudança no tom de roxo, o pH é neutro. Se ficar azul, a água é básica. E se ficar rosa, a água é ácida.

