BDRA-26-Biodiversidade Ameaçada

Grazieli Gotardo   Extra Classe - Porto Alegre, RS   March 2010

Junto com o aumento da temperatura na Terra, a perda da biodiversidade é o maior desafio para a humanidade nos dias atuais. Para chamar atenção para o problema, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2010 o Ano Internacional da Biodiversidade. Segundo dados divulgados em janeiro deste ano pela Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD), órgão da ONU que trata do assunto, a taxa de perda de espécies chega a cem vezes à da extinção natural e vem crescendo exponencialmente. Pesquisadores estimam que 150 espécies sejam extintas todos os dias no mun­do e calcula-se que 30% delas podem deixar de existir até o final deste século, se o aquecimento global não for mantido abaixo de dois graus.

No Rio Grande do Sul, ecologistas e enti­dades ambientais buscam defender uma das áreas de maior biodiversidade da região Sul do país, a Bacia do Rio Uruguai. Ela se estende para além do território gaúcho até o estado vizinho de San­ta Catarina, além de Uruguai e Argentina, tendo como um de seus principais afluentes o rio Pe­lotas, a Nordeste do estado. A região abriga os últimos remanescentes da Mata Atlântica, sendo considerada Núcleo de Reserva da Biosfera pela Unesco, abrigando grande número de espécies ra­ras e ameaçadas de extinção. É apontada pelo Mi­nistério do Meio Ambiente (MMA) como área de extrema importância biológica, portanto prioritá­ria para a conservação da biodiversidade.

Mesmo assim, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, prevê a construção de mais de 20 usinas hidrelétricas em toda a bacia para geração de energia que, segundo biólogos, pode fazer o rio desaparecer. "O rio Pe­lotas está morrendo em uma escadaria infindável de projetos de grandes, médias e pequenas hidre­létricas", alerta Paulo Brack, professor da Ufrgs e doutor em Ecologia. O professor lembra que a energia gerada por essas usinas é altamente po­luente, pois ao inundar grandes áreas de florestas produz gás metano em alta quantidade, gás este um dos grandes responsáveis pelo aumento da temperatura do planeta.

Criação de Corredor Ecológico pode salvar o rio Pelotas

Desde 2004, quando foi aprovado o licen­ciamento da Usina de Barra Grande, em Anita Garibaldi (RS), uma das cláusulas do Termo de Compromisso assinado entre o Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ministério Público Federal, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Re­cursos Naturais Renováveis (Ibama), Ministério das Minas e Energia, Energética Barra Grande S.A. e a Advocacia Geral da União foi a criação do Refúgio de Vida Silvestre do rio Pelotas e Campos de Cima da Serra, uma unidade de conservação de proteção integral, com aproximadamente 270.000 hectares. Desde então, diversas consultas públicas ocorreram, mas segundo Brack, o projeto está congelado na Casa Civil, visto que a criação do refúgio pode "atrapalhar" a liberação das hidrelétricas. "Queremos apenas salvar alguns trechos do rio", argumenta o professor.

Para colocar o assunto em pauta na sociedade novamente, no mês de janeiro deste ano as ONGs Mira-Serra e The Nature Conservancy promove­ram o seminário Quem faz o que pelo rio Pelotas, que resultou num documento encaminhado ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. A carta do even­to reforça a necessidade da criação, no Ano Inter­nacional da Biodiversidade, da maior Unidade de Conservação de proteção integral do extremo Sul do Brasil. Conforme a ativista do Mira-Serra, Ká­thia Vasconcellos, o documento solicita ao ministro as providências cabíveis para a criação do Refúgio. "Também salientamos a importância do indefe­rimento de licença para empreendimentos hidre­létricos, como o do projeto Pai Querê, nesta bacia hidrográfica", explica.

A área do Refúgio abriga diversas espécies ameaçadas e endêmicas de fauna e flora, como ex­tinção de pelo menos 12 espécies de peixes, o quei­xada (porco do mato), jaguatirica, urubu-rei, gavião de penacho, papagaio-charão e mais de dez espécies de orquídeas, entre outros. O território ainda tem alto valor histórico e cultural por possuir um sítio arqueológico chamado Passo de Santa Vitória (Bom Jesus, RS), correspondente a um posto alfandegário do "Caminho das Tropas", histórico caminho dos tropeiros que percorriam o país do Rio Grande do Sul ao estado de São Paulo. Segundo ambientalis­tas, a região ainda possui alto potencial turístico por sua beleza. "A Constituição Federal suprime a pos­sibilidade de colocarmos em risco de extinção qual­quer espécie. Está claro que espécie não se negocia, mas eles (os interessados no empreendimento) não querem saber de nada que seja impedimento", afir­ma Brack.

João de Deus Medeiros, diretor de Flores­tas e Biodiversidade do MMA, também concorda com a criação do Refúgio, mas alerta que não será a solução. "É necessário lembrar que, não obstante a enorme importância da área do refúgio, já que é hoje o último trecho ainda com possibilidade de se manter o rio com seu curso e características origi­nais, ele é parte da implementação de compromissos assumidos pelo MMA, Ibama, MME, AGU, MP e Baesa, como forma de viabilizar o licenciamento da UHE Barra Grande que estava (e está ainda hoje) com questionamento judicial", destaca.

Licenciamento de Pai Querê continua sendo questionado

A hidrelétrica Pai Querê, obra prioritária do PAC, na fronteira nordeste do RS e Santa Catarina, se aprovada será a quinta em série no rio Pelotas. Se­rão inundados 6,12 mil hectares transformando em um lago de 83 quilômetros o rio Pelotas, causando a morte de aproximadamente 181 mil araucárias e mais de 3 milhões de árvores nativas. O montante equivaleria a duas vezes a arborização de Porto Ale­gre, cidade considerada a mais arborizada do Brasil, segundo dados do Institu­to Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá). O empreendimento tem investimentos pro­jetados de R$ 968,92 milhões e seria controlado por um Consórcio formado pelas empresas Votorantim, DME Energética e Alcoa. Desde 2003 inúmeros estudos de impacto ambiental foram feitos e con­testados por órgãos de defesa do meio ambiente. A Fepam e o Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica já deram pareceres contrários.

O primeiro Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima), feito pela empresa Engevix, não foi aceito por estar incompleto. Atualmente, um novo está sendo feito pela empresa Bourscheid Engenha­ria, que informou ainda não ter finalizado o trabalho. "Estamos realizando a atualização conforme Termo de Referência emitido pelo órgão licenciador. O estudo, mais abrangente do que o EIA-Rima original, encaminha-se para a sua etapa final com a compilação dos dados de campo e a elaboração do respectivo relatório, o que nos im­possibilita adiantar informações definitivas. Não há uma data definida para a entrega do documento ao Ibama", informaram via assessoria de imprensa. Ou­tro argumento dos ambientalistas contra a Usina é o volume de energia gerado, de apenas 292 MW (me­gawats), o equivalente à duplicação do Parque Eólico de Osório. "Ademais, é bom lembrar que nessa re­gião onde está planejada esta UHE não estratégica também estão sendo instalados parques eólicos que compensariam sua geração e não destruiriam a bio­diversidade de forma irreversível", completa o Brack.

Licenciamento Ambiental

Interesses ambientais, econômicos e políticos nem sem­pre caminham juntos no caso de grandes empreendimentos como usinas hidrelétricas. O órgão que regula o licenciamento ambiental no Brasil é o Conselho Nacional do Meio Ambien­te (Conama), que estabelece o prazo de um ano para a licença prévia de empreendimentos que necessitem Estudo de Impac­to Ambiental. "Mas isto é um prazo médio, para uma varia­da gama de empreendimentos. Não podemos comparar uma megahidrelétrica em seu impacto a uma obra de irrigação ou a duplicação de uma estrada, que também devem ter Estudo de Impacto Ambiental", argumenta Luiz Felippe Kunz Júnior, médico veterinário da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre e ex-diretor de Licenciamento do Ibama. Para ele, estes megaempreendimentos precisam de um prazo diferenciado para que melhores estudos sejam feitos, seus impactos sejam corre­tamente avaliados e se propicie uma adequada discussão com a comunidade envolvida. Kunz também defende uma maior res­ponsabilidade dos governantes no processo. "Por que o presi­dente tem que autorizar compra de aviões para a Aeronáutica, assinar decreto de terras indígenas e unidades de conservação e ficar "alheio", só fazendo pressão para a liberação de grandes obras? Que assuma toda a responsabilidade. Creio que o debate político sobre estas megaobras entraria em outro patamar, com ganhos para a proteção ambiental", acredita ele.

FRAG-RIO: estudo mostra alta fragilidade do rio Pelotas

O MMA recebeu em dezem­bro de 2009 o estudo denominado FRAG-RIO, contratado pelo próprio Ministério, com o objetivo de estudar a viabilidade da instalação de usinas hidrelétricas da Bacia do rio Uru­guai para a elaboração de diretrizes de licenciamento para os trechos re­manescentes de rio livre. O trabalho foi desenvolvido em conjunto pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Unipampa. "O produto principal permite que se responda perguntas como: Se eu tenho que construir uma hidrelétrica nesta bacia, qual o trecho de rio é menos frágil? Ou seja, onde causa menor perda de patrimônio natural e sócio-ambien­tal?", explica Rafael Cabral Cruz, doutor em Ecologia e coordenador do Projeto.

Um dos focos do FRAG-RIO foi a região chamada de Alto Rio Pelotas, onde está projetada a UHE Pai Querê que, segundo conclusões do relatório, é de "alta fragilidade do ponto de vista da biodiversida­de", recomendando que esta área seja considerada Livre de Barramento. O trabalho constata que a Usina está projetada para o "trecho de maior fra­gilidade remanescente do rio Pelotas". O FRAG-RIO foi solicitado pelo MMA em substituição à Avaliação Ambiental Integrada (AAI) da Bacia do Rio Uruguai, estudo feito em 2006 pelo Consórcio Themag-Andrade & Canellas-Bourscheid, contratado pela Empresa de Pesquisa Energéti­ca (EPE), subordinada ao Ministério das Minas e Energia. A AAI foi for­temente questionada por entidades ambientais gaúchas e posteriormente rejeitada pelo MMA por sua incon­sistência técnica. Além das fragilida­des técnicas, também foi contestado o fato de ser contratado pelo MME e não MMA. "Este item mostrou níti­do conflito de interesses, pois a coor­denação da avaliação esteve sob a res­ponsabilidade do setor que planeja a produção energética no Brasil", disse Juliane Bortolotti, bióloga do Ingá e mestre em Ecologia.

 Ingá questiona modelo da AAI

Preocupados com a ado­ção de modelos deficientes por parte do governo para a avaliação das bacias hidrográficas, como já ocorreu com a Avaliação Am­biental Integrada, o Ingá está lançando dia 14 de março, quan­do se comemora o Dia da Luta Contra as Barragens, um traba­lho na forma de relatório em que eles apontam as deficiências e fragilidades da AAI e avaliam as­pectos técnicos e as diretrizes po­líticas do processo de elaboração da avaliação. Segundo Juliane, a ideia é que os futuros estudos sejam mais exitosos e desviem-se dos erros cometidos nesta pri­meira análise. "A AAI da bacia do rio Uruguai acabou desvian­do-se do seu propósito e tornou-se um instrumento de chancela de todos os empreendimentos existentes e futuros, previstos há três décadas. Ela correspondeu aos interesses expansionistas do setor de produção hidrelétrica do governo federal e do segmento privado concessionário deste se­tor", explica a ecologista.