BDRA-20-Japi, a serra da resistĂȘncia
Eduardo Lacerda Revista Terra da Gente - Campinas, SP August 2009
Testemunha das eras glaciais, da chegada e do desaparecimento dos dinossauros, testemunha da história da Terra. Estas são as credenciais das montanhas onde eu queimo óleo diesel às 5h30 da manhã. Sinto um pouco de culpa por importunar esse antigo berço da natureza, onde animais e plantas ainda têm alguma tranquilidade para se renovar.
Na estradinha pedregosa, o mato arranha a lataria da caminhonete 4x4 dos dois lados. Se outro veículo viesse em nossa direção, seria difícil desviar. Mas eu sabia que estaríamos sós na Serra do Japi, eu e o técnico ambiental Eduardo Pontes, monitor autorizado para visitas à reserva. Nosso objetivo é subir pela mata e fotografar o nascer do sol.
"Esta estrada tem mais de 100 anos", diz Pontes. Fico admirado, pensava estar em uma área pouquíssimo explorada, já que a serra tem uma série de títulos que lhe conferem proteção. Ela foi transformada em Reserva Biológica pelo município de Jundiaí; tombada como patrimônio natural pelo estado de São Paulo e reconhecida como Reserva da Biosfera pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Tais áreas de proteção variam de 20 a 190 km2.
Largamos a caminhonete à beira da estradinha de terra e seguimos numa caminhada pela mata escura. Quando chegamos ao mirante, numa clareira, já havia uma faixa vermelha no horizonte. Em poucos minutos, a explosão de cores do nascer do sol acontece sobre um tapete de nuvens estendido aos nossos pés.
As altitudes da serra do Japi variam de 700 a 1.300 metros. Nas partes mais altas, a vegetação é bem seca, com árvores de folhas grossas e galhos retorcidos. Entre eles, tenho a agradável surpresa de encontrar um líquen vermelho, sinal de boa qualidade do ar, apesar de estarmos tão perto de grandes cidades.
"As maiores árvores foram retiradas", explica Pontes. "Só desistiram de transformar tudo isso em lavoura por que a terra não é boa". Ficou apenas a fruticultura, em especial de uva, que se desenvolve muito bem em solos pobres. O terreno íngreme desanimou até mesmo quem apanhava lenha nesta região. Em alguns pontos, apenas rochas afloram e o cultivo seria ainda mais penoso. Ruim para os produtores rurais, bom para a natureza. A mata desses trechos permanece quase intacta.
O Japi é o maior remanescente, no estado de São Paulo, da chamada floresta mista de interior, com espécies da Mata Atlântica e também árvores que perdem folhas por esta época, a mais seca e fria do ano. A transição entre diferentes tipos de vegetação ainda inclui algumas espécies de cactos, como o mandacaru (Cereus jamacaru), uma espécie igualmente comum na Caatinga do Nordeste brasileiro.
A mistura de espécies características de biomas diferentes tem dois motivos principais. Um é o relevo, que influencia a formação de chuvas. Os ventos úmidos vêm do Oceano Atlântico e são barrados pela face Sul das montanhas, formando nuvens, e a chuva cai ali mesmo. A média, naquela vertente é de 230 dias de chuva por ano. Já na face Norte do Japi são apenas 95 dias de chuva por ano.
Isso favorece a biodiversidade e, claro, atrai os pesquisadores. A serra é tema de inúmeros trabalhos acadêmicos e livros, como o lançado neste mês, escrito pelo biólogo e pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite, José Roberto Miranda. "Eu me apaixonei pela Serra do Japi na década de 1970, quando era estudante da Universidade de São Paulo (USP)", relembra Miranda, que fazia visitas à floresta para observar plantas e animais.
Segundo conta, um dos momentos mais fascinantes ocorreu na noite em que observou uma congregação de anfíbios. Isso acontece todos os anos, no início do verão. Milhares de machos, de dezenas de espécies, se reúnem à beira de lagoas e formam um barulhento coral para atrair as fêmeas. Até mesmo o minúsculo sapinho pingo-de-ouro (Brachycephalus ephippium) se fazia notar. Para Miranda, a espécie é um símbolo da Serra do Japi: "Ele não é exclusivo desta área, mas, até hoje, só aqui observei este anfíbio em grande quantidade".
A mistura de espécies - típica de regiões de transição - também tem raízes na idade destas montanhas. Miranda explica que as formações geológicas datam de 600 milhões de anos. Durante as eras glaciais, a savana dominava o cenário. Nas eras interglaciais, com o clima mais aquecido e mais úmido, a floresta atlântica tomava conta. Nas condições atuais, permanecem representantes dos dois climas.
Miranda diz ainda que os primeiros humanos apareceram nesta floresta há 8 mil anos. Homens primitivos, coletores, buscavam as margens dos riachos, que até hoje existem em abundância. O nome Japi vem do guarani Y-api e significa nascente ou cabeceira de rio (há outras teorias sobre o significado do nome, mas esta parece ser a mais coerente). E foram estes rios e riachos que ajudaram a moldar a serra, além do desgaste milenar das vertentes com as chuvas e contrastes de temperatura.
A grande variedade das plantas abre muitas possibilidades para a fauna. Na Serra vivem quase 300 espécies de animais, entre anfíbios, répteis, mamíferos e aves. E só entre as borboletas foram contadas 652 espécies.
Os felinos ali estão bem representados, com a ocorrência da onça-parda (Puma concolor) e da jaguatirica (Leopardus pardalis). Sua presença é mais um indicativo de qualidade do ambiente. "Como estes animais são topo da cadeia alimentar, a presença deles significa que todos os níveis inferiores estão saudáveis", explica a veterinária Cristina Harumi Adania, coordenadora de fauna da Associação Mata Ciliar, uma organização não governamental (ONG) especializada em recuperação de flora e fauna que funciona ao pé da Serra do Japi.
As armadilhas fotográficas já registraram a presença de vários desses grandes animais, mas não existe uma estimativa mais precisa de quantos vivem na região. Talvez esse número saia de uma pesquisa com jaguatiricas iniciada no mês passado, parte de dissertações de mestrado de pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Os resultados devem sair em 2 anos.
A Associação Mata Ciliar recebe bichos encontrados fora da mata, dá atendimento veterinário e, no caso de animais brasileiros, quando possível, os devolve à natureza. A tendência, porém, é preocupante. Há 3 anos, eles recebiam um animal por dia; agora são 3, em média, sinal de degradação do ambiente, apesar dos esforços de conservação.
A introdução de animais de outras regiões do Brasil - ou até de outros países - na Serra do Japi é uma ameaça às espécies nativas locais. Muitas pessoas pensam estar salvando a natureza ao soltar bichos de cativeiro na serra, mas "os animais exóticos representam 100% de chances de problemas", explica Cristina. Quando sobrevivem, eles passam a competir com as espécies locais por alimento e abrigo, causam estresse ou levam doenças para a mata.
Um caso exemplar dos efeitos da competição indesejada é o do sagui-estrela-preto (Callithrix aurita), ameaçado de extinção. Suas áreas de vida e seu alimento têm sido tomados pelo sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), natural da região Nordeste, libertados de cativeiros.
Outra preocupação é o fogo, conforme destaca o chefe da divisão Florestal da Guarda Municipal de Jundiaí, Paulo Vicente Soares. "O ano todo temos queimada no Japi", afirma. Na grande maioria dos casos são pessoas que iniciam o fogo propositalmente, mas os balões também são um sério problema. Até as velas usadas em cultos religiosos provocam incêndios com frequência.
O desmatamento e a caça ainda ocorrem, e a especulação imobiliária também exige atenção. Diversos empreendimentos tentam se aproximar da Serra com o apelo da qualidade de vida. Mas um dos casos realmente impressiona: no topo da serra há uma grande área plana, onde foi aberto um condomínio de chácaras na década de 1970. Como àquela época a lei permitia, os imóveis permanecem legalizados. Felizmente apenas 10% dos lotes têm construções, no entanto, em uma das ruas de terra é fácil confirmar a fragilidade do solo: a mata deu lugar a uma enorme frente de erosão com cerca de 10 metros de largura e várias dezenas de metros de comprimento, em meio à qual é possível ver, totalmente expostas, as raízes de uma grande árvore levada com a terra.
Na década de 1990, ambientalistas protestaram contra a instalação de uma fábrica de bebidas a menos de 2 km da floresta, na face Norte, onde está a maioria das nascentes. Hoje são dezenas de indústrias e condomínios empresariais nesta região, sob grande pressão do crescimento populacional.
"A maioria das pessoas não tem consciência de que a mata é biodiversidade", afirma Cristina Harumi. Em sua opinião, é preciso mudar esta situação para diminuir o risco para a Serra. Para tanto, a ONG é aberta a visitas de escolas da região. Mas educação ambiental é sempre um trabalho de longo prazo. A proteção imediata depende de leis e da definição de regras, como o Plano de Manejo para a Reserva Biológica da Serra do Japi, um documento apresentado ao público em 2008 pela Prefeitura de Jundiaí, que norteia o uso e a conservação da área.
O levantamento mostra que, hoje, apenas 25% da reserva são de propriedade do poder público, que tem a intenção de aumentar este índice para facilitar a proteção. O estudo também revela que as trilhas de visitação precisam ser mais controladas, preparadas com informações que ajudem o público a entender a importância da Serra ou expliquem porque uma reserva biológica como esta admite apenas atividades de educação ambiental e pesquisa. O objetivo é conservar para que toda a riqueza de seres vivos não desapareça e esteja à disposição da Ciência.
O biólogo José Roberto Miranda vai ainda mais longe. Para ele, a atividade de educação ambiental não deve ser apenas permitida, ela deve ser estimulada. As pessoas precisam sentir que a reserva tem uma função em sua vida, inclusive em situações simples, como o lazer. "Quem vê um animal de perto, percebe a sua beleza e não quer que ele desapareça", exemplifica. Se a reserva parecer algo próximo, com benefícios imediatos, é mais fácil convencer a população da necessidade de conservar.
(QUADRINHO DESTAQUE)
O pingo-de-ouro (Brachycephalus ephippium) é um anfíbio minúsculo, com cerca de 2 cm de comprimento, que traz na pele a cor do perigo para os predadores. É amarelo-dourado, bem chamativo. A pele do sapinho tem glândulas de veneno paralisante. Graças à defesa natural, ele pode andar lentamente pela floresta, sempre em altitudes elevadas, a mais de mil metros. O pingo-de-ouro não põe os ovos na água, e sim nas folhas caídas no chão da floresta. Os filhotes já nascem com forma adulta, sem passar pela forma de girinos. Mas se os outros animais querem distância, o homem quer conhecê-lo bem. A substância tóxica de sua pele pode levar a indústria farmacêutica a desenvolver analgésicos potentes e remédios para o coração.
(BOX 1)
Cores e sabores
A terra pobre do sopé da serra do Japi garante uma riqueza de sabores e paisagens capaz de atrair o turista. O solo, ruim para lavouras anuais, é ideal para a produção de frutas como a uva, o morango e o figo. A cada ano, a safra de mais de 170 mil toneladas abastece vários estados enquanto 1,5 milhão de visitantes vêm até o entorno da serra para conhecer o Circuito das Frutas, que reúne 8 municípios. O turismo rural é uma fonte de renda a mais para o produtor e ainda divulga a história e a cultura da região. Os turistas encontram roteiros que permitem conhecer a vida no campo, colher frutas, provar da culinária e da produção local de vinhos. E também é possível caminhar pelas matas da Serra do Japi, ali vizinhas. Guias credenciados pela prefeitura de Jundiaí levam grupos através de trilhas, andam pela mata e cruzam riachos de água cristalina. Certamente, quem enfrenta esta pequena aventura vai entender um pouco mais sobre a importância de conservar esta mata tão especial.

