BDRA-10-Turismo de Pesca
Bruna Cristina Ferreira Revista Globo Rural - São Paulo,SP November 2009
Fundação SOS Mata Atlântica lança programa para preservar os estoques pesqueiros na região do Lagamar, em São Paulo, e gerar emprego e renda
Enquanto a manhã avança, a neblina vai sumindo e revelando aos poucos a paisagem de serras e ilhas recortada pelo azulado do mar, rios e canais do Vale do Ribeira, no litoral sul do estado de São Paulo. Seguindo pela BR-116, antes de chegar ao Paraná, encontra-se o Polo Ecoturístico do Lagamar, formado pelos municípios de Cananeia, Iguape, Ilha Comprida e Pariquera-Açu, que abriga uma rica biodiversidade em seus estuários, manguezais, dunas, restingas, praias e ilhas.
A região tem a maior porção contínua de Mata Atlântica do país, cerca de 11% do total de remanescentes florestais existentes só no estado de São Paulo. Habitada desde os tempos coloniais por comunidades caiçaras, até hoje é um local de preservação da cultura desses mestiços de índios e portugueses que permanecem com suas tradições e atividades, com especial atenção à pesca. Isso porque o Complexo Estuarino Lagunar de Iguape-Cananeia-Paranaguá, o Lagamar, possui uma variedade de espécies aquáticas que atrai muitos pescadores. Foi de olho nesse potencial que a Fundação SOS Mata Atlântica criou o Projeto Mata Atlântica & Pesca, uma forma de incentivar a atividade na região, gerando emprego e renda e preservando os estoques pesqueiros.
A ONG, que tem inúmeros programas de preservação da Mata Atlântica e que idealizou o Polo do Lagamar, lançou o projeto com o propósito de diagnosticar e monitorar a pesca amadora nas regiões de Iguape, Cananeia e Ilha Comprida, incentivando o turismo de pesca de forma sustentável. "O Brasil tem de 3 a 5 milhões de pescadores amadores, que geram uma receita anual estimada entre 125 e 160 milhões de reais", diz o biólogo Fabio Motta, coordenador do projeto e do Programa Costa Atlântica, também da SOS. "No entanto, a atividade pode ser uma aliada ou gerar impactos negativos nos serviços ambientais e na biodiversidade", diz o biólogo.
E os impactos não são poucos. O investimento na atividade pesqueira sem o manejo sustentável pode causar problemas como a poluição das águas e o fluxo intenso de barcos motorizados, levando à destruição de manguezais, assim como o extrativismo pode diminuir os estoques de peixes - o que já vem acontecendo. A região abriga três tipos de pesca: a artesanal, a profissional e a amadora, sendo esta última o enfoque do projeto. A artesanal é a atividade mais antiga, praticada pelas comunidades caiçaras com uso do "cerco". Tradicionalmente, de dois a três pescadores se reúnem e montam um "cerco" com vários galhos e pequenos troncos fincados dentro do rio ou canal. Quando a maré sobe, o peixe entra e fica preso, e assim que ela desce, os pescadores vão até lá em pequenos barcos e retiram a pescaria, principalmente para consumo próprio. É a atividade mais sustentável da região, por isso praticada há anos pelas comunidades locais e regularizada pelo Ibama. O problema está justamente na profissional e na amadora.
A pesca profissional é a atividade voltada para a comercialização, destaques para a pesca da tainha, do robalo, da pescada e também do camarão. Já a pesca amadora é a do turista, que navega em seu próprio barco ou aluga um e contrata os serviços de um piloteiro. Geralmente, ele leva os peixes para casa. Na amadora, também há a pesca esportiva, em que o pescador solta todos os peixes que forem retirados da água após ser fisgados. O turista de pesca é o que pratica a modalidade amadora, e é ele que o Mata Atlântica & Pesca quer atingir.
O projeto busca mapear o turismo de pesca da região a partir de informações que serão trazidas pelos Guias de Pesca, figura central na iniciativa, pois é nele que está o diferencial de fazer do programa ao mesmo tempo ecológico e social. Desde o ano passado, 105 piloteiros foram treinados pela SOS, em conjunto com entidades de ensino e pesquisa, para ajudar na conscientização do turista de pesca na região da APA (Área de Proteção Ambiental) Cananeia-Iguape-Peruíbe e do Complexo Estuarino na preservação da biodiversidade. Seu trabalho inicial consistiu em medir os peixes durante a pescaria, com o auxílio de uma régua, para saber em que idade os peixes são capturados e assim avaliar que atitudes tomar. Se os peixes muito pequenos forem pescados e levados para consumo, isso prejudicará o desenvolvimento da espécie, que não terá tempo suficiente para se reproduzir.
"Já foram monitoradas 204 pescarias e mais de 6 mil peixes foram examinados por 37 guias que estão nos trazendo resultados. Os Guias de Pesca que registram a biometria estão fazendo um trabalho voluntário. Se não tivesse envolvimento deles, esses dados não existiriam", diz o pesquisador associado do projeto Pietro Moro. Em contrapartida, os pesquisadores também estão levantando dados da cadeia produtiva, como marinas instaladas, hotéis e pousadas e quem é esse turista que visita a região. Tudo para compreender que tipo de estrutura estará por trás do desenvolvimento do turismo de pesca, e a partir de então fomentar iniciativas que ajudem o Lagamar. Na maioria dos casos, o Guia de Pesca é um pescador antigo, que abandonou a profissão por conta das dificuldades de se trabalhar com a pesca profissional na região. Ele já percebeu que a quantidade de peixes diminuiu e não pretende colocar a própria vida em risco para poder ganhar o sustento da família. "Antigamente, eu botava a rede que ficava um dia armada e pegava uns oito cações. Hoje, o cação praticamente acabou", lembra-se o atual Guia de Pesca Gilmar Leocardi. Hoje, aos 49 anos, ele não quer saber de voltar para a pesca profissional, que praticou desde os 19. Casado, com dois filhos adolescentes, não vale mais a pena pescar em mar aberto. "Já cheguei a ir bem mais longe da costa para tentar achar peixe. E eu conheço muita gente, muito amigo meu que morreu abusando no mar."
Gilmar é piloteiro há três anos e meio e é o maior entusiasta do projeto. Ele conta que sempre soube que os peixes menores precisavam ser devolvidos e costuma conversar com todo turista sobre a necessidade de devolver os pequenos. "Eu falo que tem de soltar. Que o pequeno é o peixe que vai crescer. Eles normalmente concordam." E o turista também não tem muita escolha. Com as orientações dos pesquisadores do projeto, as marinas que aderiram à iniciativa são rigorosas quanto às instruções. "São poucos os clientes que não aprovam, e nós explicamos antes de ele sair para pescar, mas quando reclamam eles costumam falar que querem trocar o guia, mas damos a mesma instrução para o outro e assim por diante", diz Fabio Tetsuo, proprietário da marina Utamuru, no bairro de Porto Cubatão, na Cananeia.
O cenário é paradisíaco, mas ainda existem os problemas de pesca com "arrastões", em que dois barcos saem para pescar juntos com uma rede cuja trama é muito pequena e fica presa entre ambos, pegando todos os peixes que encontram pelo caminho, inclusive os menores, mais novinhos. Mesmo sendo proibido e com fiscalização da polícia ambiental. Além disso, é comum os peixes serem capturados antes de desovar, como a tainha que vai para dentro do canal de navegação para poder desovar e lá ela já não tem a menor chance de escapar.
Ainda assim, o turismo de pesca é uma grande opção para o polo, cuja principal atividade é o turismo e a segunda maior a pesca. Assim como Gilmar, Paulo, João, Miguel e demais Guias de Pesca, todos vão perceber que, além da caranha, da cioba, do robalo-peva e da pescada, também há os sambaquis, os golfinhos, as pequenas vilas de casas históricas e a revoada dos guarás. Essa última só por volta das 18h, mas chegamos um pouco atrasados. Tudo bem, fica para a próxima.

