BDRA-07-Mar avança e divide ilha no extremo sul do Litoral Paulista
Andrea Ribeiro Fernandes A Tribuna - Santos,SP May 2009
MEIO AMBIENTE. Maré alta de agosto deve separar a Ilha do Cardoso do 'último grão de areia' do Litoral Paulista. Avanço do mar obriga caiçaras a mudar casas da margem do estuário que separa São Paulo do Paraná. Há trechos em que as águas avançaram 250 metros
A casa em que o pescador Tito Santana, de 66 anos, vive com a família já é a terceira. De tempos em tempos, ele precisa erguer uma nova moradia na Enseada da Baleia, sempre distanciando um pouco mais da margem do Canal do Ararapira. Tudo culpa da erosão contínua que a Ilha do Cardoso, no extremo sul do Litoral Paulista, vem sofrendo.
"As outras casas estão todas dentro da água. Tinha um pé de jambolão que eu plantei ali", fala apontando para a margem. "Também já foi embora". O problema é que agora uma parte da ilha, na mesma vila que Tito mora, ficou tão estreita que a expectativa de geólogos e oceanógrafos é que se rompa em 2012 (o fenômeno pode ocorrer dois anos antes ou depois).
Em outras palavras, a terra será engolida pela água e cerca de 90 moradores (além da Enseada da Baleia, ainda há outra comunidade no Pontal do Leste) ficarão isolados do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, caso não sejam transferidos.
Mais: segundo especialistas, a atual Barra do Ararapira deve se fechar após a abertura de uma nova ligação do estuário com o mar, o que significa que cerca de seis quilômetros de areia tendem a se separar da Ilha do Cardoso e se juntar à Ilha do Superagui, parque nacional que pertence ao Paraná.
Apesar de a erosão no local ser considerada por especialistas como um processo natural, segundo o professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Rodolfo José Angulo, o rompimento da faixa de areia e, consequentemente, a abertura de uma nova barra, é um fenômeno "que não ocorreu na Ilha do Cardoso nos últimos mil anos".
Angulo explicou que, com a nova geografia da ilha, a transformação não vai parar. Quando a barra nova se formar, a tendência é que o Oceano Atlântico recue naquele trecho. Em compensação, se confirmada a expectativa de fechamento da atual Barra do Ararapira a partir da junção da última praia de São Paulo com a Ilha do Superagui, "toda a costa próxima, do lado do mar, vai passar por processo de erosão", ou seja, segundo o especialista, "o mar vai avançar".
MARÉ DE SIZÍGIA
Mesmo com a expectativa de rompimento, no máximo até 2014, o oceanógrafo Marcelo Eduardo José Müller - cujo tema da dissertação de mestrado em Geologia pela UFPR é a erosão da Ilha do Cardoso - não descarta a possibilidade de o fenômeno ocorrer de repente, resultado de um grande evento climático.
"Mas para isso,a água teria de retirar toda a duna que tem na frente daquele esporão, o que é mais difícil de acontecer. Pode até ser que a água passe por cima da faixa de areia. Alguns pescadores da região dizem que isso já aconteceu".
Segundo Müller, quando ocorre a coincidência do término dos ventos do quadrante sul com uma maré vazante de sizígia (alta), a erosão é intensificada.
Na sabedoria típica dos caiçaras, a maré de sizígia mais preocupante costuma acontecer em agosto, quando o sol, a lua e a Terra estiverem alinhados, fenômeno que provoca as maiores oscilações de maré.
O oceanógrafo, que monitora a área mais estreita da ilha desde novembro 2006, explicou que o processo de erosão da parte interna da restinga do Cardoso é contínuo e tem relação com a forma côncava da margem. Já na parte voltada para o mar aberto há períodos de erosão e deposição de areia, o que resulta em um certo equilíbrio.
Nova barra deve surgir em breve
Depois do rompimento da restinga da Ilha do Cardoso, o processo de formação da nova barra no Canal do Ararapira não deve ser demorado. A expectativa do professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Paraná Rodolfo José Angulo é que "em poucos meses a nova desembocadura alcance o tamanho da atual", que tem cerca de um quilômetro e funciona como o divisor costeiro entre os estados de São Paulo e do Paraná.
Para os caiçaras que moram tanto na Ilha do Cardoso quanto na do Superagui, as implicações que a mudança pode trazer são temas distantes. Com a nova geografia, o oceanógrafo Marcelo Eduardo José Muller visualiza problemas políticos e econômicos, além de modificações na circulação estuarina.
PREJUÍZO PARA PESCADORES
O reflexo direto para as pessoas que dependem da pesca será mais sentido pelos moradores da Vila de Barra do Ararapira, em Superagui. Os pescadores que coletam os peixes em mar aberto, por exemplo, gastarão mais com combustível, já que terão de navegar um trecho maior dentro do Canal do Ararapira para chegar na futura nova barra.
No entanto, na opinião de Müller,esse fator social e econômico não será prioridade nas prováveis discussões políticas que surgirão com a nova configuração da Ilha do Cardoso.
VERBAS DE ROYALTIES
O oceanógrafo entende que as autoridades estarão mais preocupadas com o que pode representar a mais ou a menos para os estados os cerca de seis quilômetros de restinga que se soltarão de São Paulo e que podem se unir ao Paraná.
Para o especialista, essa discussão deverá ser pautada pelos valores em royalties (compensação financeira devida ao Estado pela produção de petróleo e gás natural) que São Paulo pode perder e que o Paraná deverá herdar.
Erosão é inédita nos últimos mil anos
A transferência das famílias que ocupam o trecho de terra que ficará isolado da Ilha do Cardoso para outra área começa a ser definida na próxima semana. Segundo o gerente da Regional Sul da Fundação Florestal (órgão da Secretaria de Estado do MeioAmbiente), Donizete Barbosa, a minuta para firmar parceria com a USP autorizando o mapeamento geológico da ilha já está pronta e deve ser assinada nos próximos dias.
De acordo com o administrador do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o geólogo Mário Nunes de Souza, das 90 pessoas que estão no sul da ilha, apenas 30 serão transferidas. São os moradores da Enseada da Baleia que, por enquanto, foram os únicos que manifestaram, segundo ele, vontade de mudar. Isso porque há receio que, com o rompimento da ilha, a erosão naquele trecho se acentue ainda mais.
Segundo o oceanógrafo Marcelo Eduardo José Müller, os moradores da Enseada da Baleia estão bem próximos do trecho que deve ser engolido pela água do mar, algo em torno de 500 metros.
Já os outros 60 moradores do Pontal do Leste não manifestaram interesse em se transferir, segundo Souza, e parecem encarar o fenômeno com tranquilidade: "Eles sempre andaram de barco e canoa, então não altera muito a vida deles".
CONFIGURAÇÃO ATUAL TEM MIL ANOS
Neste sentido, Moysés Tessler, do Instituto Oceanográfico da USP, e que já abordava a erosão da Ilha do Cardoso em seu doutorado, na década de 80,concorda com Souza.
"A erosão da ilha é um processo natural que o avô já assistiu, o filho também e agora é o neto que vê, tanto que ninguém se instala na barra. Caiçara é inteligente", resumiu Tessler.
Região tem cada vez mais ressacas
Apesar de todos os especialistas consultados por A Tribuna afirmarem que a erosão da Ilha do Cardoso é um processo natural, caiçaras dizem que o clima na região mudou. Morador de Itacuruça, o pescador Ivo Carlos Neves, de 49 anos, diz que, nos últimos meses, "tem chovido bastante e aumentou a quantidade de ressacas". Essa mudança tem afetado diretamente os negócios da família.
O bar que os irmãos de Ivo têm na praia desde 1999 já foi mudado de lugar três vezes. Agora, eles estão desmontando a estrutura novamente enquanto aguardam autorização da direção do Parque Estadual para erguer o estabelecimento um pouco mais distante do mar.
Da última vez que a maré subiu acabou arrebentando parte do bar, mesmo com sacos de areia improvisados na frente do estabelecimento em forma de dique. "Foi a primeira vez que a água veio tão de repente", conta Sérgio Carlos Neves, de 34 anos, irmão de Ivo. "Os turistas ficaram assustados e correram na direção da mata".
Morador de Marujá (vila mais estruturada da ilha), Ezequiel de Oliveira, de 69 anos, que nasceu no Cardoso, diz que o número de ressacas aumentou. Conhecedor dos fenômenos locais, ele garante que o calor está mais intenso: "Ciclone era no Caribe, agora está aqui em Santa Catarina. Com certeza as mudanças climáticas estão acelerando o processo".
Conforme a geóloga Paola Mihály,cuja dissertação de mestrado defendida há 13 anos já tratava da erosão no Cardoso, no período em que pesquisou o fenômeno não havia indícios de aceleração do processo resultante de mudanças climáticas.
Professor do Departamento de Oceanografia Física, Química e Geológica da USP, Michel de Mahiques afirma que não é possível descartar nenhuma hipótese,"nem a elevação do nível do mar". Segundo ele, somente estudos específicos explicariam as causas das mudanças na costa: "O desafio é separar o que é causado pelo homem do que é processo natural".
Mesma opinião tem o professor do Departamento de Oceanografia Física da USP, Edmo Campos,ao comentar as mudanças no vento e na temperatura no Atlântico Sul: "O dedo do homem está aí. A impressão digital é indelével".
Tamanho
22.500 hectares é a área total do Parque da Ilha do Cardoso
Limite SP/PR
>>O artigo 4o da Lei de Ampliação do Parque Nacional do Superagui (9.513/97) determina que "os acréscimos de terra que vierem a sofrer as ilhas do Superagui e das Peças, ao longo do perímetro do Parque Nacional que acompanha a orla marítima, em decorrência da deposição de sedimentos e ação das correntes marinhas e marés, ficarão automaticamente incluídos na área do Parque".
>>Alei estadual paulista n˚ 1.736, de 27 de setembro de 1920, determina a divisa entre os dois estados: "Começam no Oceano Atlântico, na Barra do Ararapira, acompanham a curva do rio passando pelo povoado do mesmo nome, até o meio do Istmo do Varadouro, e, aí, buscam o divisor das águas que correm, à direita, para o mar e Canal do Ararapira, e, à esquerda para as baías do Pinheiro e Laranjeiras"
>>Como nenhuma destas leis prevê mudanças drásticas como as já descritas,uma nova lei, comum novo limite deverá ser formulada para demarcar a divisa entre os dois estados.O novo limite será na nova desembocadura ou na antiga?
*TRECHOS EXTRAÍDOS DA MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DE CURSO EM OCEANOGRAFIA DE MARCELO EDUARDOJOSÉ MÜLLER

