BDRA-06-Paraíso Cobiçado

Andrea Ribeiro Fernandes   A Tribuna - Santos,SP   August 2009

DISPUTA. Ação judicial de imobiliária de São Paulo pode tirar a terra de cerca de 500 sitiantes que nasceram ou escolheram o Quilombo para viver

Apesar de pertencer a Santos, o Vale do Quilombo fica próximo de Cubatão. Parte da área está inserida no Parque Estadual da Serra do Mar

Um pedaço de Santos que poucos conhecem. Distante dos grandes edifícios e numa região cercada de Mata Atlântica, na área continental, o Vale do Quilombo é alvo de disputa há décadas. A região já foi visada pelo poder público e, por pouco, não abrigou uma zona industrial.

Hoje é palco de nova batalha que revela interesses distintos: de um lado a Savoy, imobiliária de São Paulo que seria proprietária da área. Do outro, sitiantes que vivem na (e da) terra que "em se plantando, (quase) tudo dá", como provavelmente descreveria Pero Vaz de Caminha se tivesse que relatar o local que no passado chegou a abrigar escravos fugitivos.

Uma liminar, resultado da ação movida pela imobiliária, determina a saída dos sitiantes e a reintegração de posse à empresa. A decisão afeta quase 500 pessoas (a estimativa é dos moradores já que não há dados oficiais), que estão ameaçadas de perder tudo: casas, plantações e criações.

Enquanto a medida judicial não é cumprida, em parte pela dificuldade de definir qual é o trecho que pertenceria à Savoy, A Tribuna visitou o local para registrar o relato de pessoas que nasceram no Quilombo ou que aprenderam a fazer daquele pedaço terra, apesar de todas as dificuldades, seu verdadeiro lar.

Precatórios

O Quilombo passou por processo de desapropriação (iniciado na década de 70), que acabou não sendo concretizado, mas resultou em precatórios que somam milhões. Segundo a Procuradoria Geral de Santos não há como informar o valor

 A região é tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Arquitetônico do Estado (Condephaat)

 Tamanho da propriedade

Para que a reintegração de posse seja cumprida, a Polícia Militar (que deve acompanhar a desocupação, sem data para acontecer) aguarda laudo da Savoy apontando a delimitação de sua área 20 quilômetros quadrados é o tamanho estimado da região conhecida como Vale do Rio Quilombo, na Área Continental de Santos

 Embate jurídico e destinação

>>Muitos sitiantes do Quilombo dependem do que cultivam na terra para comer. Esse deve ser um dos argumentos dos moradores para solicitar a revogação da liminar que manda desocupar a área

>>Segundo o assessor jurídico da Savoy, Otávio Caetano, não há projeto para o Quilombo. Depois de ter reintegrada a posse, a empresa pretende "colocar guardas no local e manter a área preservada"

Beatriz adora ler, mas está fora da escola

Um rio de águas claras que corre ao lado do sítio de seus pais e onde ela pode nadar, e uns poucos livros, têm sido toda a diversão de Beatriz Germano Gomes, de 11 anos. Filha de seu Luiz, 54 anos, e de dona Mauricy, 49, a menina que adora ler e estudar e que mora no Vale do Quilombo, em Santos, município que ostenta o título de Cidade Educadora, foi apenas quatro dias para escola em 2009, quando começou a cursar o quinto ano do Ensino Fundamental.

Isso porque o ônibus fornecido pela Prefeitura e que antes avançava pela estrada de terra cerca de 2,5 quilômetros dentro da comunidade para buscar as crianças (são 48 em idade escolar no bairro), agora (por causa do péssimo estado da pista) se limita a parar na Rodovia Piaçaguera, que dá acesso ao Quilombo.

Como a menina mora a uma distância de mais de quatro quilômetros da rodovia, a ida até a escola se tornou uma tarefa quase impossível.

O pai, que carrega no corpo as sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC) e precisa de um pedaço de bambu para se equilibrar, não consegue cumprir um trajeto tão grande. A mãe, que pode caminhar, justifica a dificuldade: como a volta das crianças ocorre por volta das 19 horas, num lugar onde não há energia elétrica, não é difícil imaginar a escuridão.

Para vencer os dias do ano em casa, Beatriz dedica boa parte do tempo à leitura. "As vezes eu até brigo com ela para parar de ler, porque fica forçando a vista", alerta dona Mauricy com a simplicidade de mãe zelosa. No quarto da casa de alvenaria recém-construída com a ajuda de amigos da família, a menina mostra os poucos livros que tem e conta que gosta de estudar história e ciências.

Beatriz fala pouco, mas é dona de um sorriso generoso, diferente de seu pai que pouco sorri. Seu Luiz tem a expressão de um pai preocupado com o futuro da filha. Aposentado por invalidez, hoje recebe um salário mínimo e consegue comer graças ao que planta no sítio e às galinhas que cria.

Ele e a esposa estão no Vale do Quilombo há 13 anos. Antes, moravam no bairro de Cachoeira, em Guarujá, mas trocaram a urbanidade da periferia pela tranquilidade da vida no meio do mato. E não se arrependem. Para o casal, o lugar é mesmo um paraíso, não fosse pelo detalhe da estrada de terra.

"Aqui para mim é melhor, mas para ela (Beatriz) não está sendo", lamenta o homem que se indigna com o fato de nenhuma autoridade dar conta da manutenção do acesso ao bairro.

Os pensamentos e preocupações que atormentam seu Luiz não são suficientes para a menina desgostar do lugar em que mora desde que nasceu.

Diferente do Pequeno Príncipe (personagem de Antoine de Saint-Exupéry) que precisou sair de seu planeta e rodar o universo até ter certeza de que o seu lugar era onde esteve a vida toda, Beatriz, a pequena cidadã do Quilombo, não pensa em sair de lá.

Estar ao lado de seus pais e perto das plantas e animais, como o pequeno macaco que visita o sítio da família quase todos os dias em busca de alimento, é o que ela mais quer.

Além, é claro, do direito de ser criança e de estudar.

Dificuldades

"Eu não tenho condição de levar minha filha até a pista"

Luiz Confessor Gomes, pai de Beatriz, que tem o corpo fragilizado por um acidente vascular cerebral (AVC) e não consegue andar os mais de quatro quilômetros que separam o sítio da família da Rodovia Domênico Rangoni (ex-Piaçaguera-Guarujá)

Severino dispensa quase tudo da cidade

Ele mora na Toca do Índio (nome do sítio de seu Severino Guedes de Paiva, de 73 anos) absolutamente sozinho. Antes de ter seu canto de terra no Vale do Quilombo, tomava conta de outro sítio. Somando o tempo em que vive no lugar que chama de seu e o que trabalhou para outras pessoas, lá se vão mais de 20 anos na comunidade.

Saiu de Guarujá, onde vivia cercado por familiares, para ir morar no meio do mato. Hoje reparte seu espaço apenas com dois cachorros e um gato. "Essa é a companhia que eu tenho". Seu Severino não reclama e nem sofre daquilo que muitos homens temem: a solidão. "Eu estando com Deus, estou com tudo na minha vida".

Para comer, conta com o que planta e colhe. Antes da lida na terra, o homem solitário ganhava a vida como pedreiro. Foi assim durante 25 anos, mas ele sempre sonhou em viver como está hoje: "Eu me dou mais no mato do que na cidade. Quando vou na casa do meu filho fico doidinho".

Encontro com ele próximo da hora do almoço, enquanto procuro o sítio de Alemão, o homem que apresentaria a reportagem para a comunidade. A pele castigada pela idade é realçada pelo largo sorriso,enquanto conversamos.

Nas mãos,seu Severino carrega uma garrafa de guaraná que foi buscar no bar mais próximo de sua casa. Pelo visto, o refrigerante gelado é um dos poucos luxos proporcionados pela zona urbana que seu Severino ainda não dispensou.

Tio Beraldo só teme a justiça divina, vento e trovoada

Se tem alguém no Vale do Quilombo com histórias para contar é o tio Beraldo, como é chamado por muitos moradores. Aos 84 anos, Beraldo Marques, que nasceu na comunidade e vive com a esposa, dona Maria, 88 anos, já viu e ouviu muita coisa naquelas matas: de animais selvagens como onças, até assombração.

Mas garante que não tem medo de nada. Ou melhor, quase nada. "A senhora sabe do que eu tenho medo? Da justiça divina, de vento e de trovoada".

Tio Beraldo parou de fumar há cerca de 50 anos. Quando era jovem chegava a consumir três maços de cigarro por dia. O vício foi cortado quando um médico disse que se ele continuasse não teria nem seis meses devida.O incrível é que tantos anos depois, continua em plena atividade.

O mais antigo sitiante seguiu os passos do pai, que enquanto viveu no Quilombo cultivava bananas. Da família (no total, eles eram sete irmãos), restou apenas ele, que hoje, mesmo com a idade avançada, trabalha sozinho em seu sítio (um dos mais afastados da rodovia) e cuida de 12 mil pés de banana.

O casal vive em uma estrutura simples, que contrasta com a entrada do sítio, cheia de palmeiras imponentes. Na cozinha, dona Maria tem um fogão a gás, mas confessa que prefere Cozinhar no fogão de lenha.

Na casa, entre tantos objetos antigos e lembranças de um passado distante, um dos poucos traços de modernidade é uma pequena televisão que distrai dona Maria e mantém tio Beraldo conectado ao resto do mundo.

Reginaldo, prestes a explodir de tanta alegria

Tudo o que Reginaldo Maria, de 49 anos, fez desde que chegou no Quilombo foi evoluir. A primeira moradia, há 16 anos, era uma barraca de lona. A dificuldade inicial, somada a um antigo problema de saúde, acabou lhe rendendo um apelido: homem-bomba.

Como Reginaldo não tinha eletricidade no sítio, carregava seu aparelho inalador até a casa de um vizinho para ligá-lo. "Aí o pessoal falava: lá vai o homem bomba", conta, rindo.

Reginaldo evoluiu. Construiu uma segunda casa (que até hoje abriga a família) de paredes improvisadas com telhas e sem piso e, atualmente, está finalizando a terceira habitação, toda de alvenaria.

Energia elétrica em casa? Agora ele tem esse luxo 24 horas por dia porque  desenvolveu uma "roda d'água", que funciona como gerador de eletricidade. A engenhoca usa o recurso do rio para fazer funcionar lâmpadas e até uma televisão e foi toda pensada por ele.

Sua criatividade rendeu um fogão com estrutura de aparelho convencional, mas que funciona com lenha. A casca de um fogão velho foi encaixada sobre um módulo de tijolos, com espaço para queimar a madeira.Tudo isso para assar o bolo dos filhos.

Sim. O ex-vizinho do antigo lixão do Sambaiatuba, em São Vicente, mora no sítio com a segunda esposa (a primeira não quis viver no mato) e com cinco filhos.

Seu maior orgulho é saber que no Quilombo ele garante segurança e diversão para a família. "Aqui eu tenho tudo melhor do que na cidade". Reginaldo é de fato um homem-bomba, prestes a explodir de tanta alegria.

Alemão nasceu longe, mas se sente em casa

Waldemar Romig, de 43 anos, é conhecido como Alemão. A pele extremamente clara e os olhos exageradamente azuis se destacam na comunidade, e convencem qualquer pessoa de que se trata de um gringo.

Pode-se dizer que ele é praticamente isso. Nascido em Pomerode, "a cidade  mais alemã de Santa Catarina", Alemão já está mais do que habituado com o Quilombo, local onde vive há dez anos.

No sítio, mora com a esposa e com os animais que cria. Tem galinha, marreco, pato. Até uma pequena criação de peixes ele já iniciou. Mas seu xodó são os 12 cachorros.

Na frente do quintal, um bar reforça o orçamento da família. Nos fundos, o Rio das Onças garante o abastecimento e uma espécie de trilha sonora relaxante.

Quando decidiu viver no Quilombo, Alemão era empreiteiro em Guarujá. "Financeiramente lá eu poderia até estar melhor. Só que a paz de espírito que eu tenho aqui não tem nem comparação".

A tranquilidade tem preço, alerta Alemão. Viver no (e do) Quilombo exige esforço. Por causa do trabalho no sítio, ele acorda às 4h30 da manhã. Mas toda essa dedicação é recompensada pela própria natureza, que lhe dá a sensação de dever cumprido.

Cada pássaro que se alimenta das frutas que Alemão cultiva, e cada palmeira (nativa da Mata Atlântica) que ele planta mesmo sabendo que não poderá extrair o palmito-juçara do caule, é motivo de orgulho para esse estrangeiro que descobriu no Quilombo seu verdadeiro lar.