BDRA-05-Eles não têm para onde ir

Andrea Ribeiro Fernandes   A Tribuna - Santos,SP   January 2010

OCUPAÇÕES IRREGULARES. Nas favelas da Zona Noroeste de Santos, barracos construídos com restos de madeira e sem nenhuma estrutura chegam a ser vendidos por R$ 5 mil

 

Casas improvisadas em becos e ligações de energia clandestinas colocam em risco a vida de milhares de pessoas

 

Ocorrências

Quedas de palafitas e barracos incendiados estão entre os acidentes mais comuns. Na semana passada, um bebê morreu afogado na maré, no Caminho São Sebastião

 

Congelamento de favelas

Projeto de lei que cria o Plano de Contingência para Controle de Ocupações Irregulares está em tramitação na Câmara

 

16 mil famílias aproximadamente vivem em nove áreas: Pantanal, vilas

Telma, Santa Casa, Alemoa e dos Criadores, Bela Vista I e II, Monte Cabrão, Dique Vila Gilda e São Manoel

 

"Tia, aqui embaixo dessa cama tem um buraco", apontou uma criança à repórter-fotográfica Nirley Sena, enquanto ela registrava uma palafita em um dos muitos becos do Caminho São Sebastião, na Zona Noroeste de Santos, onde na semana passada um menino, de apenas 10 meses de idade, morreu Afogado ao cair de um barraco construído sobre a maré.

Daniel Lucas Gonçalves Bezerra rolou da cama que ficava junto a uma parede de madeira podre, que cedeu. A marca da tragédia (um buraco aberto na frágil moradia) ainda está lá disfarçada apenas por um trapo. Pior: a família do menino (mãe e outro filho), garantem os vizinhos, continua morando no mesmo lugar porque não tem para onde ir.

O cenário aqui descrito é um retrato mais do que fiel do que se vê repetidas vezes nesse trecho da Cidade. Longe dos jardins da orla e das praias tão conhecidas, cartões postais e motivos de orgulho do santista, o Município abriga mais de 16 mil famílias em favelas, inclusive em palafitas como a do pequeno Daniel.

Espalhadas em pelo menos nove áreas (a maioria na Zona Noroeste) essas cerca de 64 mil pessoas estão expostas diariamente a perigos como,por exemplo,incêndios (resultado de ligações clandestinas de energia) e afogamentos (com a queda de palafitas).Somente nos últimos seis anos,24dessas moradiasdesabarame190barracosforamqueimados.

Questionada sobre os acidentes e as ações para evitar mortes, a Prefeitura garantiu que entre 2004 e 2009 não houve registro de vítimas fatais, e ressaltou que o resultado é fruto da política preventiva que minimizou as ocorrências. Reconstrução de passarelas, remoção de lixo descartado irregularmente sob as palafitas, implantação de rede de drenagem e esgoto, em parceria com a Sabesp, e recuperação de alojamentos em situação de risco estrutural foram citadas entre as medidas.

Apesar das ações, foi de abandono o cenário encontrado nos fundos da maioria dos becos visitados por A Tribuna durante a semana, no Jardim São Manoel/Caminho da União, e nos Caminhos da Capela e São Sebastião, no Dique Vila Gilda.

Planos para tirar essas comunidades da condição de submoradias, em parceria com os governos Federal e do Estado, não faltam. Todos com nome e sobrenome: Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Programa Crédito Solidário, Programa de Reassentamento Habitacional, Programa de Atuação em Cortiços, Programa Cidade Legal, Programa Alegra Centro Habitação, Programa Santos Novos Tempos, entre outros listados em um relatório da Prefeitura encaminhado à reportagem.

Enquanto todos esses nomes não se transformam em realidade, e o déficit habitacional apontado no Plano Municipal de Habitação (concluído em dezembro) não é vencido, eles e elas (Marias, Fátimas, Luizas, Márcias, Rosanas, Livians e tantas outras que não cabem aqui) não têm para onde ir.

 

>>O retrato da miséria

Um retrato antigo da dona de casa Maria do Livramento Santos de Oliveira (foto acima), de 52 anos, ao lado do marido, morto ainda jovem vítima da pobreza extrema, tenta enfeitar aquilo que ela chama de casa: um amontoado de madeiras velhas e podres no Jardim São Manoel, presas umas às outras sobre a maré e cujo chão está aos poucos cedendo.

A pia da cozinha já arriou. O banheiro deve ter o mesmo destino.O medo de um acidente é tanto que Maria evita andar neste pedaço da casa durante a noite. Usar o banheiro de madrugada nem pensar. Ela tem receio decair na água.

Não é difícil entender seu temor. Pouco mais de um ano depois de se mudar para a Baixada Santista, quando ainda morava em São Vicente, seu marido, na época com 27 anos, caiu no momento em que passava sobre uma ponte. Com a queda, feriu a cabeça e perdeu muito sangue. Chegou a ser operado, mas12 dias depois acabou morrendo.

Maria, que já tinha três filhos, estava grávida de sete meses. Viera de Pernambuco, como todo nordestino, em busca de uma vida melhor. No entanto, tudo o que vivera até ali fora uma sequência de dificuldades que ainda estava longe de acabar.

Sem o salário do marido, veio um dos momentos mais difíceis. "Meus filhos choravam de fome e eu não tinha nem um pedaço de pão para comer". E como "desgraça pouca é bobagem", a filha acabou morrendo com apenas dois meses de vida por causa de uma infecção. Mais uma vítima da pobreza extrema.

O tempo passou, Maria criou os filhos e já tem até um neto que vive com ela. Assim como a avó, o menino não conhece outra realidade, senão a de barracos enfileirados sobre a maré. Como se fosse uma sina da família.

Hoje Maria não reclama de fome. Aliás, ela não reclama. Diz apenas que quer ajeitar aquilo que chama de casa e vai levando a vida. Enquanto isso, o retrato antigo pendurado na parede da sala não deixa esquecer uma outra fase. Difícil como agora, mas quando o fardo da pobreza ainda podia dividir com alguém.

 

>>A mulher equilibrista

A sina de Fátima Maria Aparecida da Silva, de 44 anos, é se equilibrar. Sem emprego fixo e com cinco filhos, ela equilibra um orçamento que conta apenas com R$ 50 pagos pelo ex-marido como pensão e alguns trocados de vizinhos que, de vez em quando, deixam suas crianças para ela tomar conta.

Fátima também se equilibra no espaço que ocupa em um dos becos do Caminho São Sebastião. Desafiando qualquer lei da gravidade, seu barraco, que está completamente torto, por enquanto tem teimado em ficar de pé. Mas até quando?

Nem é preciso ser engenheiro para perceber que toda a estrutura está pendendo para um dos lados. Fátima teme pela vida de seus filhos, mas equilibra o medo com a necessidade de ficar naquele lugar.

Quando venta demais ou quando a maré sobe, a única alternativa é se abrigar na casa de algum vizinho que esteja menos pior do que a sua.

Acostumada com desafios (antes ela morava em um barraco no Caminho São José, que foi destruído por um incêndio), Fátima não se lamenta. Ganha uma cesta básica aqui, vai buscar um pão ali, e equilibra a necessidade de alimentação dela e dos filhos.

"Eu não tenho do que reclamar da vida. O meu único problema é a casa que está caindo".

 

>>O palácio da favela

Quando chegou a Santos,há oito anos, Márcia Regina Alves Canuto, 27anos, que estava grávida do primeiro filho, teve de dividir o espaço de um barraco apertado e construído sobre a maré,no Caminho da Capela (Dique Vila Gilda) com outras 20 pessoas. Em busca de oportunidades, a família foi chegando aos poucos de Pernambuco. E o endereço não podia ser diferente. Só mesmo a favela consegue abrigar tantas vidas.

Hoje, já com três filhos, Márcia vive apenas como marido e as crianças. O barraco, ainda sobre a maré, tem dois quartos, sala cozinha e até banheiro com piso rio. "Agora eu estou morando num palácio", resume.

A fase mais difícil passou, mas algumas dificuldades se mantêm: o desemprego do marido, por exemplo, e o orçamento apertado e irregular. Mesmo assim, Márcia nem pensa em desistir e voltar para sua terra. "Aqui é melhor para viver. Tem escola para os meus filhos. Eu tenho a oitava série, mas o que a minha filha já sabe na segunda série, eu fico perdidinha", argumenta sobre a importância de garantir educação para as crianças. Mesmo que para isso elas precisem crescer e passar boa parte de suas vidas num palácio de madeirite, mais conhecido como palafita.

 

>>Em terra firme

Baiana de nascimento, Luiza Jesus dos Santos, de 37 anos, não perdeu a alegria de viver nem diante das dificuldades. Tanto que, quando relata alguns momentos difíceis, está sempre com um sorriso no rosto. Nem mesmo o desemprego (dela e do marido) é suficiente para esmorecer essa mulher, que mora no Caminho da União (Jardim São Manoel) há12 anos.

Há pouco mais de dois meses ela mudou para uma nova casa. Apenas parte do barraco fica sobre a maré. O restante da área ocupada já está aterrada. "Quando eu cheguei aqui (há 12 anos), não tinha nada de aterro e todo mundo morava em cima da água", lembra.

Em favelas como essa é o aterro que agrega valor às moradias. Basta o barraco estar sobre terra firme (garantida através de entulho comprado pelo valor de R$35 a carreta) para custar bem mais caro.

Para se ter idéia, o novo lar de Luiza (um dos raros ambientes arejados nas favelas da Zona Noroeste) custou R$5 mil. Com o valor investido (obtido na venda do barraco anterior) ela espera ver seus três filhos finalmente livres das crises de rinite.

 

>>Casa ou barco?

"O prefeito sabe que ventou?", questiona a dona de casa Livian do Carmo São José Góes, de 27 anos. Ela mesmo responde: "Não né, porque a casa dele não balança".

Nascida e crescida no Caminho São Sebastião, ela apenas imagina como deve ser viver melhor fora de uma favela. Se nada mudar, seus quatro filhos também se limitarão a imaginar. Possibilidade que engrossa ainda mais a revolta de Livian.

Ela está preocupada coma segurança das crianças. O barraco da família, nos fundos de um dos becos, já perdeu parte da estrutura de sustentação e o chão está cedendo. Veja como é a sensação de viver sobre amare em dias de ventania. "Aqui é pior do que barco. Balança demais".

Bem perto da casa da família um outro barraco não aguentou e cedeu, caindo na água. Por sorte, ninguém se feriu. Os vizinhos que assistiram à cena ajudaram a tirar da água os poucos pertences de quem morava ali.

Livian teme que seu barraco seja o próximo a cair. Seus filhos também. Basta o tempo mudar para que eles comecem a chorar. Atento à conversa da mãe, um dos filhos não esconde o receio. Apesar do sol escaldante do lado de fora, ele teme pelo fim do dia. "Mãe, vai chover de noite?"

 

>>O inferno é aqui

Não é exagero dizer que a sensação térmica dentro do barraco de Rosana da Costa Santos, no Caminho São Sebastião, gira em torno de 45 graus. O calor dali não é exclusividade dessa mulher, que aos 35(sendo 30 de favela) já tem uma neta de dois anos. Em qualquer uma daquelas casas improvisadas em becos tão apertados o inferno é igual.

Isso sem falar do calor humano na hora de dormir, minimizado apenas por um ventilador velho e já sem forças para girar as pequenas pás da hélice.

Na sala (que é ao mesmo tempo quarto) dormem Rosana, cinco filhos, a mãe e um irmão. Um único cômodo que divide sofá, cama e colchões. "O calor aqui é horrível", define.

E como "sorte" de pobre nunca vem sozinha, água na torneira só de madrugada. "Pra fazer tudo tem que encher os baldes. Se não toma banho, não come,não bebe. Fim de semana é pior ainda".

Rosana não está nessa casa há muito tempo. Mudou há cerca de um mês. Antes morava no barraco onde o bebê Daniel Lucas morreu na semana passada. Por causa de um madeirite que cedeu, o menino caiu na maré e se afogou.

Pensando bem, muito pior do que o calor de quase 45 graus deve ser enfrentar o inferno de perder um filho para a pobreza.