BDRA-04-Perereca rara e em extinção paralisa obras do PAC

Ana Cláudia Guimarães   Jornal O Globo - Rio de Janeiro,RJ   September 2009

Trabalhos do Arco Metropolitano, orçados em R$ 1 bi, são interrompidos para preservar espécie que vive em Seropédica


Ela tem dois centímetros. Mas está  na frente  de gigantescos tratores, caminhões e escava- deiras usados  na construção do Arco Metropolitano. E quem ou- sa passar por  cima  dela?  A maior  obra  pública  em anda- mento no Rio - 77 quilômetros de pistas que ligarão Itaboraí ao Porto de Itaguaí -, orçada em R$ 1 bilhão, parou pela força da pequena Physalaemus soaresi. Trata-se de uma perereca rara e ameaçada de extinção,  que não tem nome popular.  Ou melhor, não tinha: os operários da obra já a apelidaram de Norminha, a personagem poligâmica  da últi- ma novela da oito.

A soaresi vive numa área de 4,9 milhões  de metros  quadra- dos da Floresta  Nacional Mário Xavier (Flonamax),  em Seropé- dica, entre a Rodovia Presidente Dutra e a antiga  Rio-São Paulo. Desde sua identificação em 1965 naquela área, jamais foi localiza- da em outro lugar do planeta. O arco vai passar no meio da flo- resta - que perdeu a vegetação original -, ocupando 80 mil me- tros quadrados (1,6% do total).

Em fase de reprodução, bicho não pode ser removido

Esta semana,  a Secretaria  es- tadual  de Obras,  responsável pelo arco, que faz parte do Pro- grama de Aceleração  do Cresci- mento,  do governo  federal,  foi informada sobre a espécie pelos administradores da Flonamax e aceitaram interromper a obra. Técnicos  da secretaria estuda- vam retirar a perereca e adaptá- la a outro local. Mas um estudo mostrou que o animal está na fa- se de reprodução, num período chamado "canto nupcial".

Essa fase vai até fevereiro. Era o prazo inicial para o encerra- mento das obras.  Mas, de acor-do com o vice-governador e se-cretário  de Obras,  Luiz Fernan- do Pezão, até agora apenas  6% do cronograma foi cumprido. Desde o anúncio da construção do arco, em novembro  de 2006, vários problemas o atrasaram:

- É preciso ter muita persis- tência.  Mas estou  confiante  de que vamos concluí-lo até 2010. Segundo Vicente Loureiro, subsecretário de Obras,  as li- cenças  ambientais foram dadas com várias restrições e compen- sações  que vão custar  pelo me- nos R$ 30 milhões. Mesmo após as licenças,  os entraves persis-tiram. Foram encontrados 23 sí-tios arqueológicos e, em cada um deles,  era necessário inter- romper a construção. Na Flona- max, já tinha havido um proble- ma. Após ser concedida a licen- ça para  cortar  as árvores  nos pontos  por onde passará a pis- ta, o trabalho foi paralisado. Isso porque a lei manda que seja me- dida a espessura de cada árvo- re. As de até 15 centímetros de diâmetro são cortadas de uma forma; as maiores, de outro.

Para evitar que a obra conti- nue interrompida, a secretaria proporá  um isolamento, com placas de ferro, da área da obra.

Segundo Marcelo Marcelino, di- retor de Conservação do Institu- to Chico Mendes - órgão do go- verno  federal  responsável pela Flonamax -, os estudo vão che- gar na semana  que vem ao ór- gão, que decidirá  a melhor  for- ma de preservar a espécie:

- É uma espécie  em extin- ção, listada  desde  2003. Temos que garantir  sua conservação. ■


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Um animal  resistente

Anfíbio sobreviveu a mudanças no habitat

Apesar  de  pequena, a soaresi é uma  heroína  da resistência. Ela foi identifi- cada pelo biólogo Eugênio Izelksohn.  O professor  de 77 anos,  52 deles  dedica- dos aos anfíbios, explica que  ela é uma espécie  da Mata Atlântica  e não  era tão rara  até  o progresso chegar  a seu habitat,  a ba- cia do Rio Guandu.

A região foi rota de passa- gem do ouro. Depois, serviu à agricultura e também à fa- bricação  de seda.  Mas o maior golpe contra a soaresi foram as alterações no Rio Guandu  para  a construção de usinas  hidrelétricas  e a captação de água.

O principal  risco atual é a passagem  de máquinas e pessoas pela área florestal. Para se reproduzir,  o macho e a fêmea da espécie  se encontram  perto de um alaga-

do. O macho pressiona a bar- riga da fêmea e fecunda  os ovos na água. De acordo com o professor, juntamente com o ovo fica um líquido que os dois chacoalham com as per- nas,  virando  uma espuma que se transforma num casu- lo para proteger  os ovos.

- O muro não sei se vai ajudar,  mas será  menos  mal - afirmou o professor.

Mas para  o biólogo Celso Sanches, que coordena os estudos no local, a opção de passar com a estrada no meio da floresta deve ser mu- dada para salvar o habitat da soaresi e outras  espécies:

- É uma biblioteca viva, não estudada, que pode  ter informações que servirão pa- ra a indústria farmacêutica e cosmética, e corre o risco de desaparecer do planeta.