Honorable Mention
BDRA-02-Palmeira Jussara - O Fruto contra a extinção
Aline Cristina Rezende Gonçalves Revista Beach & Company - Ubatuba,SP June 2009
O consumo da polpa dos frutos da palmeira juçara, semelhante ao açaí, pode salvar da extinção esta frágil e importante árvore da Mata Atlântica, cruelmente abatida para a extração de seu cobiçado palmito. Aos poucos, seu destino deverá ser revertido, já que, agora, será muito mais interessante mantê-la viva
"Perguntei pra capivara que semente é essa aí, ela então me respondeu: é um tal juçara aí, é um tal juçara aí...". Esse é um dos trechos da cantiga de jongo dos quilombolas do Quilombo do Campinho, de Paraty, cantada durante a 1ª Festa da Juçara, realizada em Ubatuba, em meados de maio, no Quilombo da Fazenda.
Entre palmas, pés descalços e longas saias de chita, um pouco da história desta palmeira ameaçada de extinção vai sendo contada. Mas, agora, o enfoque é outro. A cantiga fala do renascimento da espécie por meio do manejo sustentável. Talvez seja o fim da destruição empreendida por palmiteiros, que a cortam para aproveitar apenas um vigésimo de sua imponente estrutura, o palmito. Como se sabe, a palmeira juçara morre ao ser cortada.
A Festa da Juçara coroa o sucesso de um trabalho desenvolvido pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema), e realizado há quatro anos com as comunidades quilombolas da região de Ubatuba, com o objetivo de promover o uso sustentável da palmeira juçara (Eutherpe edulis).
A ideia é simples: em vez de retirar o palmito, matando a palmeira que leva de 8 a 12 anos para ficar adulta, retiram-se seus frutos para produzir uma polpa bem semelhante ao açaí da Amazônia.
No cardápio da festa, os mais variados pratos feitos à base de ingredientes típicos da região: moqueca de peixe, caldo de mandioca, torta de banana, torta salgada com carne seca, cuscuz, bolinho de peixe e, para espantar o friozinho típico da época, um delicioso "quentão da Mata Atlântica". Tudo isso, com a bela coloração roxa e o sabor exótico da polpa da juçara.
A engenheira florestal do Ipema, Fernanda Horye que ajudou a desenvolver o cardápio da festa, afirma que os pratos foram elaborados a partir de receitas já existentes. "As mulheres da comunidade trouxeram muitas ideias, e nós fomos adaptando e testando. Na maioria das vezes, substituímos algum ingrediente da receita pela polpa da juçara. O mais interessante é que essa polpa é um alimento extremamente nutritivo, rico em flavonoides, antioxidantes, lipídeos e proteínas. A juçara também contém aquela gordura boa, que combate o colesterol."
E no menu cultural da festa, que durou dois dias inteiros, não faltaram samba de roda, jongo, capoeira, ciranda de roda, forró de rabeca e moda de viola, entre outras iguarias da cultura popular regional. Além da importância de sua preservação, a juçara, agora, é responsável pelo intercâmbio cultural entre diversos qui-lombos da região. Um exemplo é a cantiga de jongo, que comprova que a própria palmeira incorporou-se ao dia a dia dessas comunidades, assim como a pesca e a agricultura.
Incentivo à preservação
O Ipema desenvolve o trabalho em parceria com cinco comunidades quilombolas: Cambury e Fazenda, de Ubatuba; Campinho e Cabal, de Paraty e Bracuí, de Angra dos Reis, sob a tutela do Ministério do Meio Ambiente que, por sua vez, mantém convênio com o governo alemão para projetos demonstrativos (PDA), voltados para a preservação do meio ambiente.
Laura de Jesus Braga, líder comunitária do Quilombo da Fazenda, diz que este projeto foi um dos melhores que aconteceram até hoje na região. "Antes, a exploração da juçara era uma atividade clandestina. Hoje, podemos tirar o sustento dela sem cortar, para produzir esse suco maravilhoso. Descobrimos que, além da polpa, podemos fazer várias comidas saborosas e muito nutritivas. Isso, sem falar na oportunidade que estamos tendo, de reflorestar a Mata Atlântica. Tenho certeza de que, se a comunidade continuar organizada e empenhada, poderemos gerar bastante renda no futuro."
Mas, o projeto tem grandes ambições e dirige seus tentáculos para áreas sociais, culturais e ambientais. Segundo o biólogo do Ipema Eduardo Darvin, à medida que aumenta o interesse pela juçara, os cuidados englobam toda a Mata Atlântica. "Quando alguém toma um suco de juçara, contribui para que a palmeira continue de pé, e para que mais mudas sejam plantadas. Socialmente, estamos contribuindo para que os povos continuem em seus territórios, com a Mata Atlântica sendo zelada por eles. A juçara chegou a uma situação de risco tão grande que, agora, essas pessoas tornaram-se verdadeiros guardiões, protegendo-a dos palmiteiros. Já há uma relação de amor entre elas e a espécie."
Novos horizontes para os jovens
Os cachos da juçara são retirados da palmeira adulta manualmente, utilizando um instrumento chamado "pecunha", feito de saco de estopa. A pecunha é atada aos pés do coletor, que escala a palmeira. Neste trabalho, há um misto de força e delicadeza: para subir, os braços puxam o corpo, e as pernas seguram forte o tronco da palmeira. Quando chega ao topo, o coletor corta gentilmente a base do cacho e desce com suavidade, para evitar que os frutinhos se desprendam dos cachos.
O coletor de sementes Cristiano de Jesus Braga, 18 anos, diz estar se divertindo com a atividade. "É cansativo, mas vale a pena. Nós saímos em grupos de amigos para colher. Fazemos nosso trabalho entre brincadeiras. Ainda não dá para tirar o sustento só disso, porque trabalhamos mais no período da safra, de abril a maio. Mas esse projeto trouxe muitas coisas boas, estamos aprendendo bastante. Antes, nem me passava pela cabeça a importância da preservação. Hoje, já estamos conscientes e sabemos que a natureza é o nosso grande patrimônio."
De acordo com o coordenador técnico de Associação do Quilombo do Campinho Fábio Reis, o projeto envolve os jovens, a fim de torná-los agentes de preservação, além de oferecer perspectivas de trabalho na própria comunidade, e propiciar orgulho de suas origens. Para tanto, eles participam de cursos diversos, como Agroecologia, Manejo da Palmeira, História da África, Artes, Movimento Quilombola e outros. Os jovens também são inseridos em atividades que envolvem viagens, congressos e trabalhos de geração de renda.
"Se esses jovens não tivessem a oportunidade de se capacitar, o que estariam fazendo? Eles não precisam aumentar as demandas de subemprego nas cidades, porque têm a riqueza em suas próprias comunidades. Buscamos, com isso, a formação de novos líderes comunitários e a valorização da cultura nos quilombos. São valores que não são enfatizados nas escolas. Assim, eles passam a entender que podem ser gestores do ambiente em que vivem, aprendendo a lidar com a terra, valorizando os atrativos turísticos e culturais de seu povo."
Proveito total
São necessárias, aproximadamente, 1.600 sementes para se fazer um quilo de polpa. Nesse processo, tudo é aproveitado. Para retirar a polpa, os coquinhos são colocados de molho em água morna, a 30 graus. Esta temperatura é ideal para não matar o embrião da semente que é utilizado para repovoar a Mata Atlântica com a espécie. Depois do banho, colocam-se os coquinhos dentro de uma máquina que retira apenas uma fina casquinha roxa que recobre a semente. Até mesmo a água utilizada no despolpamento da juçara pode ser reutilizada para banhos, pois solta um óleo que, segundo os técnicos do Ipema, é um ótimo hidratante para a pele. Todo o processo é feito de acordo com os padrões da Vigilância Sanitária.
A polpa da juçara comercializada por meio do projeto segue os preceitos do consumo consciente e, por essa razão, sai um pouco mais cara que o tradicional açaí comercializado em nossa região. Enquanto o chamado "açaí da Amazônia" vem adicionado com substâncias, tais como: emulsificante, açúcar, guaraná e água, a polpa da juçara é totalmente pura, podendo ser utilizada em alimentos doces e salgados.
Alimento para a fauna
A semente da juçara é muito apreciada por diversos animais da Mata Atlântica, principalmente pássaros, roedores e macacos. Por esta razão, ela é considerada uma das espécies-chave para o funcionamento do ecossistema florestal. Os pássaros tiriba, periquito, tucano e sabiá, assim como roedores, como a capivara, são algumas das muitas espécies que se alimentam deste fruto. Eduardo Darvin diz que o uso sustentável da juçara também prevê a alimentação desses animais. "Cachos verdolengos, ou seja, aqueles que amadurecem irregularmente, ficam para a fauna. Palmeiras tortas, finas ou com parasitas, também são excluídas da colheita, por dificultar a subida do coletor. Nesses casos, os frutos também serão fonte de alimento para a fauna."
Serviço: Para saber mais sobre este e outros projetos do Ipema, acesse o site: www. ipemabrasil.com.br, ou ligue para (12) 38482682

