Serra de Baturité exibe reserva de Mata Atlântica

Mozarly Almeida   Diário do Nordeste - Fortaleza (CE)   February 2001


Embora a serra enfrente problemas pontuais como queimadas e desmatamentos, suas paisagens resistem às ações predatórias e ainda exibem um dos últimos espaços preservados de Mata Atlântica no Ceará. A região - fortalecida pelo comércio de hortifrutigranjeiros, de flores e de artesanato - também desponta como atrativo para turistas do Brasil e do exterior. Entre os 13 municípios que compõem o Maciço, Guaramiranga se destaca pelos eventos culturais e pela expansão da rede hoteleira
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Para se ter uma idéia da extensão do fluxo turístico na serra de Baturité basta dizer que desde o início do ano praticamente não havia mais vagas na rede hoteleira para o Carnaval. Embora a taxa de ocupação seja elevada durante quase todo o ano, a procura tornou-se mais intensa devido ao festival de Jazz e Blues que acontecerá de 24 a 27 de fevereiro, em Guaramiranga.

De olho nesse setor importante da economia da região, o prefeito de Guaramiranga, Dráulio Holanda, não nega que investe em atividades culturais, o que tem contribuído para atrair mais visitantes.

A beleza da paisagem e a efervescência cultural tem surtido efeitos. O município conta hoje com 10 unidades hoteleiras e 55 casas cadastradas para aluguel.

Guaramiranga situa-se a 86 quilômetros de Fortaleza, a 885 metros de altitude, no alto da serra. Chamada de ''Petrópolis ou Suíça Cearense'', sua temperatura média anual varia entre 12 e 15 graus centígrados.

Em pequenas propriedades, como sítios e chácaras é comum ver o cultivo de flores silvestres e as paisagens de um dos últimos espaços preservados de mata atlântica no Ceará.

Do mirante do Pico Alto, a 1.115m de altitude, a poucos quilômetros da sede, é possível se contemplar vales, serras, rios e açudes, além de um pôr-de-sol fabuloso.

Entre os pontos turísticos do municípios mais procurados estão a Igreja
Matriz de N.S. da Conceição (estilo colonial-gótico) e a Igreja da Gruta de
N.S. de Lourdes (estilo barroco).

TRILHAS - A serra de Baturité possui inúmeras trilhas ecológicas, que podem ser percorridas por praticantes do trekking, rappel e montanhismo. O ecossistema inclui a flora nativa (eucaliptos, pinheiros, ingazeiros e flores diversas) e animais (tucanos, curiós, ofídeos e anfíbios) da mata atlântica.

Já o município de Baturité conta com várias cachoeiras, como as do Jordão, no Sítio da Volta e o Poço das Moças, que merecem uma visita para um banho refrescante. A rede hoteleira de Baturité conta com a Gruta Hotel de Serra, pousada da "Escola Apostólica dos Jesuítas" e pousada Santa Edwiges.

A Escola Apostólica funciona também como uma casa de descanso e retiro. Há projeto para transformá-la num grande empreendimento hoteleiro.

A construção antiga no estilo romântico dispõe hoje de 66 quartos. O administrador, padre Fred Solon, esclarece que a idéia é dotá-la de 92 apartamentos, centro de convenções e centro de treinamento. O projeto tem apoio da bancada federal e da Secretaria do Turismo.

Baturité concentra a maior arrecadação

Localizado no sopé da serra de Guaramiranga e a 70 Km de Fortaleza, Baturité é o município mais desenvolvido do maciço e o que mais arrecada na região - cerca de R$ 600 mil ao mês.

"Baturité é considerada a capital do maciço", diz o vice-prefeito Nilton Guedes Filho. Ressalta que a agricultura e o artesanato são as principais fontes de renda.

Segundo ele, a economia do município, com população de 31 mil habitantes, está centrada na produção de hortifrutigranjeiros (sobretudo milho, verduras, banana e frutas). A produção de bananas atinge de 600 a 700 mil unidades ao mês. "Já a produção de milho fica em torno de 50 mil sacas", revela, ressaltando a qualidade das sementes produzidas no município.

A sede é uma cidade histórica, uma das primeiras vilas do Ceará-Colônia, a Vila Real de Monte Mor, fundada em 14 de abril de 1764. O nome atual foi adotado em 1830, e em tupi significa "serra verdadeira". É uma das regiões mais pluviosas do Estado, com mais de 1000 mm/ ano. Durante o dia o calor é intenso, entre 26 e 28ºC, mas à noite a temperatura cai abruptamente.

Baturité destaca-se, também, pela infra-estrutura oferecida aos seus moradores. Conta com três agências bancárias (Banco do Nordeste, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil), agência do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), agência da Receita Federal, Faculdade de Pedagogia (um braço da UECE), Fundação Nacional de Saúde, Correio e o hospital José Pinto do Carmo, referência na região.

APA tenta conter a devastação ambiental

A Área de Preservação Ambiental (APA) do Maciço de Baturité foi criada em 18 de setembro de 1990, pelo decreto estadual 20.956, ocupando uma área de 32.690 hectares.

Para seu gerente, o engenheiro-agrônomo da Semace Marco Antônio Carvalho, um dos pontos mais positivos da medida foi a ampliação do nível de consciência ecológica da comunidade, que passou a valorizar as atividades agrícolas e pastoris preservando o meio ambiente.

Apesar dos cuidados, as ações predatórias ainda levam riscos ao paraíso serrano de Baturité. Tanto que a reportagem do Diário do Nordeste flagrou uma queimada às margens da Rodovia Senador Carlos Jereissati, no município de Baturité, quase no limite com Guaramiranga.

Embora o maciço seja formado por 13 municípios, apenas oito estão localizados na serra de Baturité: o município do mesmo nome, Guaramiranga, Pacoti, Mulungu, Aratuba, Palmácia, Redenção e Capistrano. Todos os municípios estão na cota superior a 600 metros acima do nível do mar, sendo que somente Guaramiranga está 100% na APA, isso porque sua altitude é de 850 metros. "Grande parte de Pacoti e Mulungu também está inserida na APA", afirma o gerente, explicando que a região apresenta espécies típicas da Mata Atlântica.

Conforme o decreto, a área de proteção é de conservação e uso direto, ou seja qualquer atividade que represente risco para o meio ambiente precisa passar por licenciamento ambiental.

"Buscamos orientar o agricultor sobre a preservação dos recursos naturais até mesmo como uma forma de garantir sua qualidade de vida", frisa Marcelo.

Segundo ele, a melhoria do nível de consciência quanto à necessidade de um desenvolvimento sustentável é percebível pelo crescimento do número de solicitações de pedidos de licenciamentos.

Guaramiranga exporta flores para todo o País

Nem só de turismo vive Guaramiranga. O pequeno município do Maciço de Baturité destaca-se, ainda, pela produção de hortigranjeiros e de flores. É ali que vive um dos maiores floricultores do Brasil, o engenheiro-agrônomo Francisco José Linhares Teixeira, responsável pela exportação de crisântemos e copos de leite para quase todo o País.

Embora evite falar em números, confessa estar incluído entre os maiores produtores de copos de leite do mundo e que em sua propriedade usa tecnologia de ponta, no que se refere à irrigação e adubagem, com destaque para a utilização do nitrato de amônia e sulfato de potássio.

Partidário da tese de que a "agricultura não é coice de amador", admite que para o sucesso de sua atividade são decisivos a temperatura amena da região e a altitude.

Clima favorece à agricultura

O clima ameno e a altitude do maciço de Baturité têm confirmado a vocação da região para o plantio de hortifrutigranjeiros e até mesmo facilitado a introdução de novas culturas. É o caso do plantio da alface americana, ou alface repolhuda, como também é conhecida. Se há alguns meses, o Ceará importava a hortaliça de São Paulo, hoje ela não apenas é cultivada em Pacoti como conquistou seu mercado consumidor.

Para o maior produtor de hortifrutigranjeiros do município de Pacoti, Luís Miguel Gonzaga Neto, a alface americana "tem uma boa procura no mercado, além de ser mais resistente". Apesar das dificuldades iniciais para aquisição das primeiras sementes, hoje ele produz uma média de 20 mil alfaces americanas por mês. Toda sua produção é adquirida por grandes redes de supermercados.

"A serra é propícia ao cultivo de hortigranjeiros devido ao clima frio e ao solo argilo arenoso", explica Miguel Gonzaga, que também cultiva, em suas cinco propriedades, chuchu, brócolis, beterraba, tomate, alho porró e o café classificado de ecológico, devido à ausência de agrotóxico.

A produção semanal de chuchu, por exemplo, chega a 1.700 caixas, cada uma delas com 20 quilos da hortaliça e a de brócolis a cerca de 800 maços por semana.

Além de fornecer hortigranjeiros para a Centrais de Abastecimento do Ceará S/A (Ceasa) e para os supermercados locais, Miguel Gonzaga exporta para Mossoró e, ocasionalmente, para Salvador, Recife, Pernambuco e Campina Grande (também no Rio Grande do Norte).

Além das condições climáticas propícias ao plantio, o produtor que faz parte do Fórum de Clientes do Banco do Nordeste (BN), diz que a produção é estimulada pelos investimentos e o repasse de informações recebidos do BN e pelo apoio do governo do Estado. "As vias de acessos à serra de Guaramiranga são bem conservadas e o governo não cobra o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) sobre a conta de energia elétrica", disse, queixando-se, porém, do excesso de restrições por parte da Semace. "Para tudo na região é necessário licenciamento, até para a construção da casa de um morador ou de uma fossa. E, para isso, são taxas e mais taxas", critica.

Cooperativa melhora condições de vida de jovens carentes

Resgatar os jovens das ruas, oferecendo uma perspectiva de emprego e renda. Com esse objetivo foi criada, em 1976, a Cooperativa de Artesanato de Baturité, que na ocasião contou com o apoio técnico e dinheiro do governo da Bélgica, através de um projeto destinado à melhoria das condições de vida em países do Terceiro Mundo.

"Inicialmente, o associado faz um estágio para entrar na cooperativa", esclarece a gerente Godeline Vanderghote, que veio da Bélgica com a missão de ajudar na fundação da entidade.

As peças produzidas, atualmente, incluem bordados a mão, roupa de cama e mesa, enxoval para bebê, confecções em geral e até mesmo cartões de Natal ou com outros motivos pintados com cera quente, uma técnica conhecida por encástica.

Muitos dos artesãos são moradores do subúrbio de Baturité, para os quais a venda do artesanato é, na maioria dos casos, a principal fonte de renda.

"Muitos turistas olham, olham mas não levam nada", diz a fundadora da Cooperativa, explicando que via de regra o dinheiro arrecadado fica em torno de R$ 1.500,00. O montante é dividido entre os 80 associados.

Godeline lamenta que apesar das condições climáticas favoráveis à agricultura, existe desemprego em larga escala em Baturité. Quando chegou na região, não havia, em boa parte do município, água tratada, telefone e energia elétrica, relembra.

"Apesar do progresso, as condições de vida do povo não melhoraram", observa, acrescentando que ainda hoje muitos homens vão para a Capital ou mesmo para outros Estados em busca de emprego.