Honorable Mention

O colecionador de nascentes

Marco Antonio Gonçalves   Jornal da Tarde - São Paulo (SP)   March 2001


A cidade catarinense de Joinville deve muito de sua qualidade de vida a um homem. Mas poucos de seus 500 mil habitantes sabem disso - nem mesmo o conhecem. Discreto e avesso a bajulações nos seus 76 anos, o empresário Carlos Schneider comanda negócios que vão da industrialização de parafusos à criação de búfalos, passando pelo setor imobiliário e de shopping centers. No entanto, a atividade que mais mobiliza suas forças nada tem a ver com lucros, debêntures ou ações. Tem a ver com a natureza, ou melhor, com a conservação de 9,4 mil hectares de propriedades que acolhem muitas nascentes dos principais rios da região, bem como remanescentes das diferentes fisionomias vegetais do domínio da Mata Atlântica em Santa Catarina. Um patrimônio que ele considera "sagrado".

Filho de um próspero comerciante, Schneider testemunhou, ao longo da vida, o custo ambiental pago por Joinville (distante 172 km de Florianópolis) para se tornar a maior e mais industrializada cidade do Estado. Sentado na sala de uma centenária casa em estilo enxaimel (característico da colonização alemã da região) encravada na Serra do Quiriri, ele se confessa preocupado. Recupera, com certa melancolia, reminiscências da destruição que o levou, há mais de 30 anos, a começar a adquirir áreas na zona rural para proteger seus recursos naturais. A água se tornou o foco privilegiado do que viria a ser sua "cruzada conservacionista".

O início da devastação

"Quando eu era criança, fazíamos piquenique nas margens do rio Cachoeira. Tomávamos banho e víamos o fundo do rio; muita gente pescava ali. Algum tempo depois, já não tinha mais peixes e nem se via mais o fundo. Fui crescendo e vendo isso", recorda. Percorrendo a área urbana de Joinville, o rio Cachoeira e seus tributários têm hoje águas turvas e mal-cheirosas, destino do esgoto doméstico e de dejetos industriais da cidade. São rios moribundos.

A Serra do Quiriri integra uma vasta cadeia de montanhas situada a oeste do perímetro urbano de Joinville, com altitudes que atingem até 1.500 metros. É nesta serra de florestas densas e mistas e de campos de altitude que se formam as nascentes que afluem para os dois rios que abastecem Joinville: o Cubatão, que atende 64,9% da demanda hídrica da cidade, e o Piraí, que fornece os 35,1% restantes.

O empresário recorda um outro fato, determinante para que voltasse suas atenções para o Quiriri. Nos anos 70, a empresa de reflorestamento Comfloresta, do Grupo Brascan, começou a adquirir milhares de hectares de terras na região. Entre 1974 e 80, a empresa substituiu cerca de 25 mil hectares de floresta atlântica por monocultura de pinus e eucaliptos para exportação. Os cultivos ocupavam (como ainda ocupam) encostas, topos de morros, nascentes e margens de rios, contrariando o disposto no artigo 2º do Código Florestal (lei nº 4.771/65), que proíbe a destruição da vegetação nas chamadas áreas de preservação permanente.

Em poucos anos, rios cristalinos perderam volume de água - em decorrência da destruição de dezenas de nascentes - e passaram a carregar grande quantidade de sedimentos - por causa da derrubada da mata ciliar. O empresário lembra que, em um desses anos, a empresa envenenou deliberadamente centenas de aves silvestres sob a alegação de que destruíam as mudas recém-plantadas. "A destruição era grande. Não havia tempo a perder."

O início da conservação

Em 1983, ele adquiriu uma área de 290 hectares, entrecortada por alguns afluentes do rio Quiriri - um dos principais tributários do rio Cubatão. Meses depois, comprou outros 750 hectares vizinhos, ao norte da área anterior. Entre 1996 e 98, arrematou mais três propriedades, todas contíguas entre si, alcançando assim o divisor de águas, a cerca de 800 metros de altura.

A esse polígono, com 2.121 hectares, deu o nome de "Fazenda de Preservação Quiriri". Ainda na Serra do Quiriri, entre 1997 e 2000, Carlos Schneider comprou outros 3,6 mil hectares para proteger parte das nascentes do rio da Prata (outro afluente do Cubatão) e do rio Piraí. Por fim, em outubro de 98 conseguiu negociar a compra das áreas onde estão as nascentes do próprio rio Quiriri, batizando-as "Fazenda de Preservação Alto Quiriri".

Em menos de duas décadas, virou proprietário de 60% das nascentes do rio Quiriri, ou de 17% das águas captadas no rio Cubatão para atender Joinville. As más línguas afirmam que seu interesse por nascentes decorre do fato de a água estar se tornando uma commodity valorizada. Não é bem assim.

Na lógica do senhor Schnerider, receber pela água que conserva é justo na medida em que empresas de captação não terão que despender recursos para sua recuperação. "Não só comprar como conservar custa dinheiro. É preciso haver incentivos para que as pessoas invistam ali. Precisava que tivéssemos a propriedade da água para que nós a vendêssemos. Com o dinheiro, eu ainda iria comprar uma terra ao lado. Para conservar", afirma convicto.

Além das águas, um rico patrimônio biológico

Nas fazendas do empresário catarinense, estão amostras significativas dos principais ecossistemas da Mata Atlântica

O empresário Carlos Schneider ainda está descobrindo a relevância do patrimônio biológico que conserva tanto na Serra do Quiriri como em outras propriedades localizadas na planície litorânea e no planalto interior de Santa Catarina. Consideradas em conjunto, seus 9,4 mil hectares detêm amostras significativas de praticamente todos os principais ecossistemas e fisionomias características do domínio da Mata Atlântica, do mangue aos campos de altitude, passando por restingas e floresta ombrófila densa e mista - na qual predomina a ameaçada araucária. Para um estado onde restam apenas 17,41% de sua vegetação original, trata-se de uma preciosidade, que interessa não só a ecologistas como também a palmiteiros.

Na verdade, o conhecimento científico sobre a diversidade biológica de toda esta região é ainda pequeno. Lúcia Sevegnani, bióloga e doutoranda em Ecologia pela Universidade de São Paulo, afirma que, por não haver centros de pesquisas especializados sobre esta parte do Estado, pouco se conhece de sua dinâmica florestal.

Segundo a bióloga, as serras do norte de Santa Catarina são singulares sob o ponto de vista botânico por estarem próximas ao litoral, formando uma barreira natural responsável por grande pluviosidade e temperaturas predominantemente elevadas ao longo de todo o ano. Estas condições são ideais para o desenvolvimento de espécies que não são encontradas em outras regiões do Estado.

"Conheci uma espécie de xaxim, chamado Marattia brasiliensis, ou xaxim-redondo, que ocorre no Paraná, mas não no resto de Santa Catarina. Deve haver bromélias e orquídeas características da Mata Atlântica que só devem existir ali", diz Lúcia. "Esta é a região que abriga o contingente faunístico e florístico mais tropical do Estado".

As peculiaridades da vegetação das serras setentrionais de Santa Catarina interessam também ao Museu Botânico Municipal, de Curitiba (PR), que tem feito coletas nos campos naturais do Alto Quiriri. Seus pesquisadores estão interessados em reencontrar exemplares de espécies endêmicas - ou seja, que só vicejam ali -, coletadas em 1958 por uma expedição dos botânicos Raulino Reitz e Roberto Klein, responsáveis pelo mais completo levantamento da flora catarinense já realizado.

Com relação à fauna, a equipe responsável pela administração e pela vigilância dos 2.121 hectares da Fazenda Quiriri afirma haver lá dentro incontáveis exemplares de espécies ameaçadas de extinção, como jaguatirica, onça parda, veados, saíra-sete-cores, jacutinga, macucos, macaco-prego e bugios.

Sentimento de urgência

Interesses menos nobres também transitam pelo Quiriri. O assédio às fazendas de preservação por parte de palmiteiros tornou-se uma preocupação permanente da pequena equipe que assessora Carlos Schneider. As invasões - um indesejável indicador do bom estado de conservação dos áreas que protege - têm crescido nos últimos anos.

Luís Carlos Brückheimer, economista e braço direito do empresário nessa empreitada, explica que tal situação deriva sobretudo do aumento do desemprego em Joinville, que leva parte da população rural a buscar meios de sobrevivência no extrativismo clandestino. Com mais palmiteiros em ação, o palmito juçara escasseia rapidamente nas áreas desguarnecidas, aumentando a cobiça sobre matas bem conservadas, como as do senhor Schneider.

A determinação em defender seu patrimônio o fez equipar um grupo de oito pessoas, que dispõe de dois veículos para fiscalizar e reprimir a entrada de predadores em suas propriedades. Na Serra do Quiriri, as atividades de vigilância são coordenadas por Antonio da Rocha, um ex-caçador e ex-palmiteiro de 45 anos, profundo conhecedor das matas e das táticas usadas pelos invasores.

A estratégia de defesa exige incursões semanais nas propriedades e em seu entorno, uma rede de informantes espalhados pela região e o apoio da Polícia Ambiental de Santa Catarina. Segundo Brückheimer, essa estrutura consome R$ 11 mil mensais, custo que se eleva em 20% quando é necessário organizar expedições para reprimir invasores. Ainda assim, em fevereiro último quatro palmiteiros foram flagrados com 471 "cabeças" de palmito, resultado de três dias de extração em uma de suas propriedades.

Embora seja protagonista de um esforço de conservação bem-sucedido, Carlos Schneider está preocupado com o futuro. Ele e sua equipe buscam idéias para perpetuar a conservação de suas fazendas. Uma possibilidade estudada é convertê-las em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN). Outra, é transformar uma parcela da Fazenda do Quiriri em um centro de recuperação e reabilitação de animais silvestres.

Segundo a bióloga Gilian da Silva, consultora da equipe, isso atenderia uma demanda da Polícia Ambiental catarinense, que não possui um espaço com estrutura adequada para a reintrodução de animais resgatados de caçadores.

Parcerias variadas

Uma possibilidade paralela é firmar parcerias com institutos de pesquisa. A bióloga Lúcia Sevegnani, que visitou a Fazenda Quiriri semanas atrás, afirma querer propor um convênio com a Universidade Regional de Blumenau, onde leciona, para realizar estudos sobre a estrutura das comunidades florestais e os processos dinâmicos das espécies que lá vivem.

O interesse de Lúcia é pesquisas de longo prazo sobre sucessão ecológica em uma área de bananais, a fim de acompanhar as variações de fauna, flora, solo e microclima decorrentes da regeneração natural da floresta. "Os resultados destes estudos de longa duração seriam úteis no manejo e recuperação de outras áreas."

São boas oportunidades. Mas Carlos Schneider considera mais urgente garantir meios para expandir a conservação aos demais remanescentes de Mata Atlântica da região. Por isso, está em busca de parceiros, nacionais e estrangeiros, dispostos a investir na proteção dos mananciais e dos remanescentes florestais do norte de Santa Catarina.

"Há muito ainda por fazer, mas nos faltam os recursos necessários. Não faço questão que seja nosso, o importante é conservar", afirma, algo aflito. Seu maior temor é que pequenos e grandes depredadores cheguem antes dele.

Parcerias, para conter a devastação

"Há muito ainda por fazer", diz Schneider. E bem pouco tempo. Atualmente, o Brasil tem apenas 7,3% de sua vegetação original

A Mata Atlântica e seus ecossistemas associados vivem a perversa situação de figurar entre as mais ricas - em termos de biodiversidade - e mais ameaçadas regiões ecológicas do planeta. A palavra-chave que traduz sua riqueza biológica é "variabilidade": variabilidade de ecossistemas, variabilidade entre espécies e dentro das espécies.

De acordo com a última edição da publicação Hotspots, da organização não-governamental Conservation International, há catalogada a existência de 1.361 espécies de vertebrados, excluindo os peixes, característicos da Mata Atlântica. Desse total, 546 são tidas como endêmicas, representando 2% do endemismo de todo o planeta até hoje conhecido. Em relação à diversidade vegetal, estima-se a existência de 20 mil espécies, das quais seis mil endêmicas.

Dos 1.290.692,46 quilômetros quadrados que originalmente cobriam o território brasileiro, remanescem hoje cerca de 7,3%, segundo o último levantamento disponível, de 1995, realizado pelas entidades SOS Mata Atlântica e Instituto Socioambiental em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Ato de resistência

Em Santa Catarina, restam apenas 17,41% das florestas e ecossistemas integrantes do domínio da Mata Atlântica que cobriam integralmente o Estado. Este percentual inclui florestas primárias (aproximadamente 3%) e florestas secundárias - ou seja, florestas degradadas em estágio médio e avançado de regeneração. Dos remanescentes no Estados, apenas 2% estão teoricamente protegidos em unidades de conservação federais e estaduais. Teoricamente, pois as áreas oficialmente protegidas não estão adequadamente implantadas, carecendo de fiscalização, alertam ecologistas catarinenses.

Em um contexto de devastação como este, a iniciativa do empresário Carlos Schneider ganha ares quase heróicos. "Ao decidir conservar suas propriedades, ele se antecipou em 30 anos em relação ao pensamento médio das pessoas, em especial dos empresários", afirma Wigold Schaffer, fundador da Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí (Apremavi).

A bióloga Lúcia Sevegnani desfia uma lista dos benefícios que suas fazendas de preservação trazem à população de Joinville: manutenção da qualidade de parte da água que a cidade consome, contenção da erosão num ambiente de chuvas intensas e grandes altitudes, seqüestro de carbono e amenização das temperaturas na região.

Embora mereça, Carlos Schneider não quer títulos honoríficos ou reconhecimento público da sociedade joinvilense. Ele quer, sim, parceiros para conservar o que resta.