BR-verde - Uma rota livre para as espécies

Cristina Amorim   Revista Galileu - São Paulo,SP   May 2004


Corredores permitem contato entre bichos e plantas antes isolados

Verdade que muitas unidades de conservação foram criadas no Brasil nos últimos tempos. Porém, é fato que muitas enfrentam planos de gestão incipientes, falta de fiscalização e pressão rural. Em paralelo, ambientalistas perceberam que manter áreas isoladas não é suficiente. Sem ligação, essas "bolhas" estão fadadas a sumir, uma vez que bichos e plantas antes conectados precisam migrar para proliferar.

Pensando nisso, o conceito de corredor ecológico, ou verde, ganhou corpo. Grosso modo, é uma ligação entre áreas protegidas isoladas, para que haja o trânsito das espécies que ali vivem. Esse elo pode acontecer entre parques, reservas e terras indígenas, e passar ou não através de propriedades rurais e cidades. Apesar de existir desde os anos 1970, a idéia finalmente saiu dos círculos acadêmicos e se embrenhou definitivamente nas matas brasileiras.

Debruçado sobre um mapa, o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani, desenha com o dedo possíveis corredores sobre pequenas manchas coloridas na região Sudeste. Cada mancha simboliza um fragmento de um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo, e mais ameaçados. Restaram apenas 7% daquela floresta densa que os portugueses acharam após atravessar o oceano Atlântico. Cinco séculos mudaram a cor da paisagem de um verde profundo para tons claros, num quadro repleto de pastagens, plantações, cidades, erosão.

"O ideal seria dizer: 'tenho vários fragmentos aqui, então vamos proteger e montar um corredor'. Mas não funciona assim", diz Mantovani, enquanto seus dedos correm o vale do Paraíba. "Quando se olha um mapa desses, a gente vê que [a região] está cheia de propriedades rurais." Apesar de a lei nº 4.771, de 1965, estabelecer que a propriedade rural deve manter pelo menos 20% da área de vegetação nativa, ela é pouco cumprida e ainda menos cobrada. Não raro o dono da terra volta os olhos para solos virgens para atender às flutuações do mercado agropecuário. Outra área atacada são as margens de rio, freqüentemente desmatadas, o que tem levado muita região - onde antes a água era abundante - a enfrentar a escassez.

"Hoje, a água é o principal argumento para convencer um proprietário de terra a
cumprir a legislação ambiental, porque ele sente que ela está acabando", afirma o diretor da fundação. Vai além outra organização não-governamental, o Instituto BioAtlântica, que reúne ambientalistas e empresários. Entre suas metas, está a formação de corredores com remanescentes da Mata Atlântica, especialmente em áreas de Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com a ajuda do setor privado. "Uma vez que a lei é insuficiente, mesmo quando cumprida, tentamos criar estímulos econômicos para o setor privado, tanto o grande quanto o pequeno investidor", conta o diretor-executivo do instituto, André Guimarães. Para ele, os corredores são a única estratégia em que todos os lados ganham, "pois compatibiliza conservação e desenvolvimento".

Uma coreografia afinada que envolve setor privado, sociedade civil e governos estaduais tem se mostrado essencial para a manutenção de corredores ecológicos na Mata Atlântica. Afinal, um pássaro não sabe se a árvore onde ele pegou a semente está dentro de um parque ou no entorno de uma grande plantação de eucaliptos. O que importa é garantir que essa semente origine uma nova árvore nativa em um local mais distante do ponto-zero e promova o fluxo gênico (veja quadro na página anterior). Outro corredor, que liga o cerrado e o pantanal, se beneficia desse perfil. Ele nasceu dentro de uma ONG, a Conservação Internacional (CI) do Brasil, mas recebeu apoio de Mato Grosso do Sul e Goiás e pode ser incorporado também pelo governo mato-grossense.

Um pouco mais para cima, a Amazônia luta para se conservar verde. Dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente em abril demonstram que a região já perdeu 16,3%, ou 653 mil km2, da floresta desde a década de 1970 (leia reportagem na página 12). "Grande parte da terra amazônica é pública e difícil de vigiar, então há muita invasão, diferente da Mata Atlântica onde a maioria é privada", conta José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente de Ciências da CI-Brasil. Ele explica que apesar de a agricultura e especialmente a pecuária expandirem na região de corredores, essa não é a maior dor de cabeça no Norte: "Trabalhamos no entorno de terras indígenas, como dos caiapós, e conversamos com donos de terra registrada, mas não dá para contar com as áreas griladas".

A favor, há corredores naturalmente formados por unidades de conservação já existentes na região, como o Corredor da Biodiversidade do Amapá, lançado no ano passado pelo governo estadual. É o maior corredor verde do Brasil, com 100 mil km2, área maior que Portugal e correspondente a 70% do Estado. Ele engloba 12 unidades de conservação, quatro reservas indígenas e vários ecossistemas: florestas tropicais, cerrado, florestas de altitude, terras alagadas e mangues. Existem outros exemplos, como o corredor que liga as reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amaná ao Parque Nacional de Jaú, na Amazônia. Essa surgiu da cabeça do biólogo José Márcio Ayres, morto no ano passado.

Macrocorredores

Foi Ayres também quem ajudou a dar forma, dez anos atrás, ao principal projeto de corredores ecológicos conduzido pelo governo federal. Ele consiste em criar sete grandes áreas, duas delas consideradas prioritárias: o Corredor Central da Amazônia, com 245.500 km2 - maior que o Estado de Rondônia -, e o Central da Mata Atlântica, com 77.500 km2. A primeira fase, que começou em março de 2002 e acaba no começo do ano que vem, tem investimento de US$ 5 milhões.

Para a segunda fase, quando ocorre a implementação dos planos de gestão, estão comprometidos 16 milhões de euros do Instituto de Crédito para a Reconstrução, KfW (na sigla em alemão), e mais 7 milhões da Comunidade Européia. É um projeto ambicioso, atado à máquina administrativa e desvinculado de outros projetos do governo. Por seu tamanho, corre o risco de não sair do papel. O coordenador, Militão Ricardo, defende: "Na realidade, muitas vezes o andamento é lento porque o processo decisório é coletivo e descentralizado", diz. "Trata-se de um aprendizado, de contato com as comunidades, do desenvolvimento dos atores que estão dentro do corredor. Eu me preocupo com os instrumentos que a gente vai ter para proteger, principalmente dizer o que fazer e não apenas proibir."

Fluxo livre

Os corredores ecológicos ligam espécies que ficaram isoladas em fragmentos verdes para promover o fluxo gênico. Gene é o elemento do cromossomo que condiciona a transmissão de característica dos pais para os filhos. Se indivíduos da mesma espécie não conseguem se comunicar , então o cruzamento ocorre entre poucos, a carga genética começa a "empobrecer" e a espécie pode não sobreviver.

Para que o fluxo ocorra, o corredor deve possuir hábitats não muito diferentes daqueles encontrados nos fragmentos verdes, conforme explica o professor Waldir Mantovani, do Instituto de Biociências da USP. "Outra estratégia é implantar 'trampolins ecológicos', que são principalmente árvores isoladas que servem de poleiros ou locais de descanso para animais em vôo transportando grãos de pólen ou sementes de espécies de plantas", diz.

Os projetos na Amazônia

1 Corredor do Amapá
2 Corredor Norte da Amazônia
3 Corredor Central da Amazônia
4 Corredor Sul da Amazônia
5 Corredor dos Ecótonos
6 Corredor da Amazônia